28 de janeiro de 2009

A violência dos filhos sobre os próprios pais

Agora os dados estatísticas já não estão fechados a sete chaves num qualquer serviço público, como nunca estiveram e a velha pecha com que nos encheram os ouvidos de que éramos um país de brandos costumes, um céu aberto, uma antecipação da pátria celestial, uma terra de anjos , a quem só faltava um par de asas e uma coroa .

Tudo uma farsa, desde logo porque, diz-se, começámos mal, sob o signo da violência quando D. Afonso Henriques – o nosso primeiro rei, esclarecimento dirigido a muito universitário, que há-de tirar uma licença, sem o saber, aprender ou alguém, na Universidade, lho ensinar entrou em confronto físico com a sua mãe, D. Teresa, quando se tomou de amores com o galego Fernão Peres de Trava.

E a história continuou a frutificar com exemplos entre gente “ graúda “ (passe o plebeísmo) como sucedeu entre D. Dinis e seu filho, que chegaram a alinhar exércitos em posição prontos para combate, não fora a intervenção da Santa Rainha Isabel, a excelsa senhora do milagre das rosas, que um conhecido comediante, que ainda ocupa parte dos ecrãs televisivos, quis desmerecer, para não dizer vilipendiar.

E a expulsão dos judeus, detentores de um capital pecuniário e intelectual, que vieram a enriquecer a Holana, a Rússia e actual Turquia (os conhecidos marranos). E a Inquisição, na esteira de Tomás Torquemada, que queimou na fogueira quem professava uma fé diferente da dominante e a perseguição infrene dos jesuítas movida – mas movida – por um dos mais esclarecidos estadistas de toda a nossa História, o Marquês de Pombal.

E que dizer da expulsão das ordenas religiosas por Joaquim António de Aguiar, o “ Matafrades “, com estátua de conceituado jurista à entrada da vetusta cidade de Coimbra, hoje reduzida a alguma ciência e pouco mais, depositado lá para os lados da Conchada.

E o ataque feroz da 1.ª República à Igreja, roubando-lhe bens, escorraçando os seus membros, entre os quais o conhecido bispo D. José Alves Correia da Silva, que depois de encarcerado sobreveio à liberdade, doente, padecendo sofrimentos horrorosos, arrastando-se dolorosa e corajosamente enquanto bispo de Fátima.

E a concentração no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, dos oposicionistas ao regime de Salazar, nas célebres “ frigideiras “ de onde poucos saíram com vida.

E que dizer daqueles que moveram e nunca foram responsabilizados pela Guerra do Ultramar, onde, dizem, morreram 13.000 Militares, a maioria dos quais militares de baixa patente, sobretudo soldados, e de origem forçada às lides de combate, furriéis e alferes milicianos, guerra sem beneficio para ninguém, se é que dela advém algum proveito.
E a responsabilização funciona, aqui, de forma biunívoca, se nos lembrarmos que eram pessoas, de cor diversa da nossa, necessariamente, e em nome incomensuravelmente maior, os que se opunham à presença portuguesa, que, famintos, mal organizados, impreparados, pereceram, por certo, em número esmagadoramente maior nessa guerra, da qual só a custo estão a atingir a verdadeira libertação.

Mas essa violência da guerra nunca apagou a que se exercia, desde antanho, na família e fora dela: a violência do marido sobre a mulher e desta sobre o marido, que tenta, ainda escamotear-se, por conveniência, porque não fornece audiências, porque não vende jornais, revistas, desde sempre praticada, seja por atraso cultural endémico, ausência de civismo, seja por heterogenia de raças, seja por carência de tipo legal penal de previsão e punição, seja por um pacto de silêncio, por não denúncia, a que se vincularam órgãos de informação, esta agora o “ abre-te sésamo, de tudo, mas também muito corresponsáveis até ao 25 de Abril por um dos Estados mais atrasados, não muito distanciadamente, nalguns casos, da Europa medieval.

E quem diz esse tipo de violência fala no abuso sexual de menores, de que o célebre caso do “ ballet rose “, envolvendo políticos do regime de Salazar e jovens raparigas, vítimas de abuso sexual, determinante de processo judicial arquivado nos fundos de um qualquer arquivo de tribunal, é paradigmático e não menos envergonhante, e de algum modo antecessor dos graves desmandos cometidos sobre crianças.

E que dizer da notícia sobre a violência já praticada entre os namorados constando que ambos, numa percentagem de 20%, se agridem corporalmente, interrogando-nos como podem eles enfrentar as dificuldades da vida e, eles próprios, no amanhã, educarem os filhos na paz e tranquilidade, notícia aterradora que informa como a nossa terra caiu na mais profunda desagregação, numa altura, de conhecimento, de enlevo, procura e começo de entrega que desaguou no inimaginável da agressão física.


Mas aquilo que me leva a escrever estas linhas é a violência dos filhos sobre os pais.

Não convém muito difundir aquilo a que os psicólogos chamam de a nova ditadura dos filhos sobre os pais. É mais apelativo fazer alusão à violência, altamente condenável, dos filhos sobre os pais e, particularmente, se indefesos e idosos, do que referir a violência verbal, física e psicológica dos filhos sobre os pais; é mais cómodo uma escola pública silenciar que um desses aspirantes a tirano encerrou a pobre mãe, por horas e dias sucessivos num quarto da casa comum.

Esses tirantes são aqueles que, em pequenos, quantas vezes pontapeiam os pais e os avós, sem uma reprimenda séria, que não passa, claro, pela agressão; são os tirantes que numa cerimónia religiosa se rebolam e fazem “ caretas “ aos avós e os ameaçam de mão em riste.
São esses tiranetes de agora que amanhã deixam brotar todo tipo de grosserias e obscenidades seja perante quem for; são esses tirantes que exercem todo o tipo de chantagem e coacção a que os pobres pais cedem e não divulgam, por medo de represálias.
São esses aprendizes a ditadores que se acoimam à manjedoura familiar pelos anos fora, tudo destruindo na diversão, na droga, no álcool, no sexo, no crime, que atacam as convicções religiosas dos pais e que se mostram incapazes de conviver com a avoenga.

São esses tiranetes que pululam de consultório de psicólogo em psicólogo em que os pais surgem sempre culpados, sem que, por vezes, haja coragem de desmentir e refutar a acusação.

São esses tiranetes que agridem professores e colegas, ante a alienação a quais bens ou valores morais que os pais não lhes transmitem, por incapacidade algumas vezes, por indiferença, ainda, outras.

Ante a dimensão do problema, que já chega longe, que já ultrapassa o receio e o temor familiares, rogando premente ajuda dos pais, já incapazes de lidar com a situação, descrentes dos meios normais de recurso, a psicólogos e psiquiatras, em quem deixaram de crer, completamente esgotados como estão, começa a pensar-se sobre se quem faz as leis não devia lembrar-se da questão e, sem mergulhar a cabeça na areia, as associações de pais não deviam, sem qualquer limite, fornecer ajuda, promover e aconselhar medidas adequadas, entre as quais – e porque não – o recurso a meios de polícia contra aqueles, de quem muito esperavam, os estão tornar profundamente infelizes, doentes, desesperados, fonte de destruição e desagregação da já quase inexistência instituição familiar.

Algumas causas estão já identificadas, ligadas ao consumo excessivo de álcool, à promoção do sexo livre, ao apelo à total rebelião à família, ao facilitismo do divórcio, à ofensa sistemática e desvirtuar de alguns órgãos de informação aos que exercem poderes de autoridade: autoridades de polícia, juízes e professores.

Quando os pais, derrotados, infelizes e em desespero, depois de insultados da maneira mais vil, algumas vezes agredidos e, quantas vezes patrimonialmente espoliados, por filhos já adultos, recorrem a entidades para oficiais atingimos um preocupante estádio de subcultura, de desagregação, de egoísmo sem limites, a um quase apocalipse social, em que o Natal é um tempo de quase – tragédia.


por Armindo Monteiro

0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More