11 de janeiro de 2009

Um Olhar de Esperança

No início deste novo ano os avisos acerca das dificuldades e da crise não param de chegar de todos os lados. O ano de 2009 vai ser muito difícil, vaticinam todos os analistas de serviço neste nosso país.

Estas chamadas de atenção são boas para que as pessoa se possam realisticamente preparar para as dificuldades que não só vêm, como já todos estamos a sentir. Não estou, pois, contra estas vozes pelo facto de nos chamarem à razão. Mas apesar disso acho que elas não estão a dizer tudo e se ficam apenas por uma parte da realidade.

É certo que a crise que nos atinge acaba por marcar de uma maneira decisiva o nosso viver, mas é igualmente certo que o nosso viver não se pode esgotar nessa dimensão.

Sei bem que todos temos direito a ter o mínimo indispensável para vivermos com dignidade. Aceito, igualmente, que esse mínimo tem hoje outros padrões mais elevados do que tinha anteriormente. Nessa linha não embarco facilmente no coro daqueles que dizem que vivemos de uma maneira muito artificial, que temos muito mais do que aquilo que realmente precisamos. Percebo claramente o que estas afirmações dizem e, em certa medida, até estou de acordo com elas, mas se posso viver numa casa aquecida não acho que seja artificial ter que viver com frio, ainda que possa viver com ele. É só um exemplo que não quer ser mais do que isso e que me serve para deixar bem claro que não estou contra o material, contra a posse de coisas, contra o usufruto dos bens que temos ao nosso dispor. Costumo a este nível dizer que não considero mal nenhum termos coisas, o que me parece verdadeiramente perigoso é sermos tidos pelas coisas que temos. E conheço mesmo gente que é tida pelas coisas que não tem, mas que gostaria de ter.

Dito isto, posso agora retomar o meu raciocínio inicial. A crise que nos afecta não pode paralisar o nosso viver. Não podemos ficar parados pensando que tudo está a ruir, que o sentido da vida se nos escapa pelo decorrer dos dias deste novo ano.
Se assim for, temos então seriamente de pensar onde está fundamentado o sentido do nosso viver. Permitam-me uma nota muito pessoal para esclarecer melhor aquilo que estou a querer dizer.
Neste ano que passou vivi umas das experiências mais dolorosas da minha vida. “Perdi” a minha mãe. Ponho perdi entre aspas, pois a saudade de a poder beijar e tocar ainda dói muito, mesmo muito, mas como acredito na vida eterna e na comunhão dos santos sei que ela continua viva e a olhar por mim e por todos aqueles que continua a amar, e agora já junto do Pai.
No momento em que a morte era já uma evidência lembro-me do olhar que ela me dirigia. Olhar que falava muito mais do que as palavras que já só muito dificilmente conseguia articular. Essa é a imagem que tenho guardada no mais íntimo do meu coração: um olhar de profunda esperança. Ela sabia em quem acreditava. Um olhar de quem sabe que o sofrimento e as dificuldades não são um faz de conta, de quem sabe que eles são reais, tão reais que até estão a pôr fim aquela maneira de viver. Mas um olhar que se fundamenta naquele que é o Senhor da Vida. Aquele olhar, que me sustentou e sustenta nesta experiência dolorosa, foi para mim - é para mim - a mais profunda certeza de que a vida vale a pena em todos os momentos, mesmo nos mais difíceis. Eu que já sabia disso a partir da minha fé e da reflexão teológica pude vê-lo confirmado na vida da minha mãe.
É com esse olhar que eu quero olhar o mundo e a vida. É esse olhar que eu quero ensinar aos meus filhos. Não se trata de não levar a sério as dificuldades, não se trata de alienação, pelo contrário, trata-se de levar a sério a vida com tudo o que ela contém, mas de a levar a sério com a certeza de que não estamos sozinhos na construção da nossa história.
Olhemos com esperança para o ano de 2009. E, depois, fundamentados nessa esperança, não tenhamos medo de agir na direcção a que ela nos impele.

por Juan Ambrósio

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