1 de agosto de 2008

A família segundo S. Paulo


«... o contributo da ideia judaico-cristã de família centra as relações familiares na igual dignidade e liberdade de todos os seus membros, dignidade que os respeita como pessoas diferentes; e centra essas relações em relações de aliança amorosa, de tal modo que cada um se sinta parte integrante do outro».


Por João Duque


Os escritos de S. Paulo são especialmente importantes para toda a tradição cristã, sobretudo pelo facto de condensarem elementos fundamentais do pensamento judaico, ao mesmo tempo que lhes conferem uma interpretação explicitamente cristã. Tudo isto, numa relação fértil de diálogo crítico com o pensamento helénico envolvente. Nesse sentido, podem considerar-se uma espécie de Summa Theologica do cristianismo inicial, que viria a marcar todo o cristianismo posterior.

Ora, um dos temas que aí aparece reflectido – mais implicitamente do que explicitamente – é o tema da família. A abordagem de S. Paulo permite-nos ficar com uma ideia bastante clara das diferenças de concepção de família, entre o mundo hebreu e o mundo grego, e entre estes e o cristianismo.

Genericamente falando, o mundo grego antigo partia do pressuposto de que os seres humanos se dividiam em diversasnaturezas. Dessas, as mais importantes eram: o homem livre, a mulher livre, os escravos e as crianças. Todos eles constituíam a sociedade familiar, sobretudo porque se relacionavam desempenhando papéis diferentes, consoante as diferentes naturezas. Considerava-se, por exemplo, que a natureza do homem era mandar e a da mulher obedecer; a do escravo, ser propriedade, e a do homem livre, ser proprietário; a natureza da criança era semelhante à do escravo, pois era propriedade do pai. A família era o espaço do exercício dessas relações diversas. Mas estava, sobretudo, enquadrada no espaço maior, o da polis, que lhe dava todo o sentido. Assim, a função de cada natureza humana estava determinada, sobretudo, pelo seu lugar na polis, através da prática quotidiana familiar e do seu contributo para a vida da cidade.

Sob este pano de fundo, conseguiremos avaliar melhor alguns textos de S. Paulo, que escrevia a partir de outros pressupostos completamente distintos. É que, para a tradição judaica, a ideia de família não derivava da ideia de polisnem da relação entre as diferentes naturezas humanas. Até porque, para a tradição judaica, não havia diferentes naturezas humanas. Todos eram radicalmente iguais, enquanto igualmente criaturas de Deus. A família humana era, sobretudo, pensada como imagem, nas relações inter-humanas, da fundamental relação de Deus com o povo. Por isso, a aliança era a categoria básica para compreender a relação familiar. Entre marido e esposa estabelecia-se uma relação de iguais, nas suas diferenças fundamentais. Uma relação de compromisso mútuo livre – e não de correspondência a certa função ou certo papel predeterminado pela sociedade. Dessa aliança livre entre pessoas de igual dignidade é que se construía a sociedade – e não o inverso. E essa aliança livre destinava-se à fertilidade, originando seres igualmente livres, que entram igualmente numa dinâmica de aliança. Os filhos eram assumidos, sobretudo, como novos filhos de Deus e membros do seu povo – e não como propriedade dos seus pais ou cidadãos da sua cidade.

Ora, é a partir deste contexto, agora com o acrescento da novidade cristã, que S. Paulo escreve. Mas escreve para o contexto grego, apontando precisamente aquilo que distingue o cristianismo. Por isso, quando, em Gálatas 3, 28, diz que «…não há escravo nem livre, não há homem nem mulher…», pretende precisamente apontar a igualdade fundamental dos filhos de Deus, cuja relação só pode ser uma relação de iguais e de seres livres.
Interessantemente, esse capítulo fala da lei como “pedagogo”. E o pedagogo era, no mundo grego, precisamente, o encarregado de «dominar» a criança, sem lhe dar espaço de liberdade, aplicando assim o direito de propriedade do pai. S. Paulo, ao mesmo tempo que se distancia desta visão grega, distancia-se da sua aplicação à lei judaica, se esta for entendida como eliminadora da liberdade. Pelo Evangelho, em Jesus Cristo, fomos libertos desse jugo, para assumirmos compromisso livres, entre iguais, pois só assim estamos libertos em Cristo.

Esse compromisso é apontado por S. Paulo em termos de aliança, mas de uma aliança que abarca a integralidade do ser humano. O exemplo dessa aliança é precisamente a família humana, apresentada como tal em Efésios 5, 21ss. Ao mesmo tempo, a aliança entre Cristo e a Igreja, que permite falar desta como «Corpo de Cristo», é o modelo de toda a família humana. Mais do que pura aliança ou contrato entre dois humanos, a família resulta de uma tal «fusão» entre dois humanos, homem e mulher, que passam a ser um só, uma só «carne». Porque o seu modelo o da própria incarnação de Deus em Jesus. Nesse sentido, a relação entre eles é de amor pleno. «Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo; de facto, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo» (Efésios 5, 28). Mesmo a referência de que o «marido é a cabeça da mulher» (Efésios 5, 23), para além de se enquadrar no esquema de vida da época, essencialmente patriarcal, deve ser lida na referência geral à relação ente Cristo e a Igreja. Cristo é a cabeça da Igreja, dando-se completamente, até à doação da própria vida. Assim o marido em relação à esposa. Nesse sentido, ser «cabeça» nada tem de dominador. Nem «obediência» pedida à esposa é sinónimo de subordinação, já que é semelhante à da Igreja em relação a Cristo, única fonte de verdadeira libertação. Ou seja, o homem e a mulher só serão o que são, na sua diferença própria, na medida em que forem para o outro e não para si próprios.
Em conclusão, poderíamos dizer que o contributo da ideia judaico-cristã de família centra as relações familiares na igual dignidade e liberdade de todos os seus membros, dignidade que os respeita como pessoas diferentes; e centra essas relações em relações de aliança amorosa, de tal modo que cada um se sinta parte integrante do outro. Esta ideia de família irá ser apresentada, por S. Paulo, como modelo de Igreja e, a partir daí, como modelo de sociedade. A sociedade cristã – e cada comunidade eclesial – seria uma grande família, assente na dignidade e liberdade dos seus membros e na relação de aliança ou responsabilização amorosa entre as pessoas diferentes, sem anulação das respectivas diferenças e sem afirmação individualística de cada uma.

Perante este projecto e o seu impacto sócio-cultural, através da educação das gerações mais jovens para valores que constituem o fundamento duradoiro de uma sociedade com futuro, coloca-se-nos hoje um desafio fundamental. Se abandonarmos, progressivamente, esta ideia de família e a sua prática, onde conduziremos as nossas sociedades? Não estarão à espreita, de modo mais ou menos encoberto, novas formas de escravatura, para fazer regredir um processo tão moroso e tão benéfico? Parece-me que, assim, se entende melhor a «teimosia» da Igreja em defender a família. Para bem da humanidade e não por fixação ideológica ou por vontade de poder.


João Manuel Duque é professor da Faculdade de Teologia da UCP – Braga. É casado e pai de três filhos (joaoduque@mail.telepac.pt).

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