29 de julho de 2008

Um mal cada vez mais necessário

Por Fabião Baptista

Segundo nos indicam as estatísticas, a população, a nível mundial, e com o padrão etário igual ou superior a 65 anos, cresceu mais de um milhão de pessoas, nos últimos 50 anos.

Feita uma análise gerontológica, a este estrato social, chegou-se à conclusão que as pessoas, com idade igual ou superior a 80 anos, aumentaram em 35%, entre os anos de 1990 e 2006.
Evidentemente que esta longevidade deve-se, essencialmente, às medidas sociais e tecnológicas que nos tempos hodiernos, foram colocadas ao serviço, defesa e protecção da chamada Terceira Idade, nomeadamente, aos progressos da medicina, às medidas profilácticas, à reabilitação e a um conjunto de métodos de diagnóstico e de cura de enfermidades.
A sociedade, dos tempos actuais, catalogou os diferentes grupos sociais, nas seguintes faixas etárias: os que aprendem; os que produzem; os que consomem sem produzirem.
Neste último escalão, agrupou os que já se aposentaram e os idosos, que passou a designar por “terceira idade”.
Ao invés do que se sucedia dantes, os anciãos perderam bastante do seu estatuto de pessoas experientes, dotadas de empíricos conhecimentos da realidade da vida, através da prática, de preciosas informações, de serem privilegiados transmissores transgeracionais de saberes científicos e do conhecimento experimental da vida. Geralmente, aposentação afasta as pessoas do sector laboral, quando, por vezes, dos reformados muito ainda havia a esperar. Mas, o pior de tudo isto, é que amiudadamente, estas pessoas são ostracisadas, impiedosamente, sem a mesma sociedade lhes garantir um mínimo de condições, para que levem uma vida digna, sem terem de entrar na decrepitude económica.
Hoje em dia, com a sempre crescente industrialização de tudo, com as novas tecnologias e imporem-se, avassaladoramente, o que tem valor é a produtividade, a rentabilidade, o alcance, a todo o custo, dos objectivos comerciais, sempre em ordem ao consumo. Nesta ordem de valores, os mais idosos, estão em franca desvantagem.
Como tal, são colocados fora do conceito da produção e, frequentemente, lançados ao olvido deprimente.
Esta a principal razão, porque há muitos trabalhadores que querem manter-se no activo laboral, não desejando sequer ouvir falar da aposentação, a qual constitui, para muitos, um verdadeiro trauma, nomeadamente, para aqueles empregados que trabalham no meio urbano das grandes cidades.
Estes, ao desligarem-se das suas funções laborais, que sempre executaram com zelo, dedicação e perseverança, sentem – se uns inúteis, um fardo para a sociedade, para as suas famílias, para eles próprios.
Perdem a auto-estima e, frequentemente, mergulham na solidão exasperante.
A juntar a tudo isto, surge a diminuição do poder de compra, ficando mais dependentes dos seus mais próximos familiares.
Só que estes, têm a sua vida nuclearizada, estabilizada e estratificada em moldes tais, que não permitem a coabitação com os seus progenitores, uns velhos caducos, cheios de preconceitos e ideias anquilosadas.
Surgem então, como recursos, os “Lares de Idosos”, as instituições de solidariedade social, vocacionadas para acolher anciãos. Os que têm sorte de terem bons filhos, embora estejam alojados em “Lares de Idosos”, são visitados com muita frequência, tratados com amor filial.
Apoiados nas suas dificuldades.
Todavia, outros há, que depois de terem sido “despejados” nestas instituições de solidariedade social, são simplesmente abandonados, olvidados e desprezados. Para estes, é a solidão o que mais os aflige e atormenta.
Há pessoas que, após uma vida inteira, toda dedicada aos filhos, vêem-se isolados, sós nas suas modestas casas ou então nos “Lares de Idosos”, sem ninguém que os ajude e os ampare, nas suas múltiplas necessidades e na sua subsistência, passando meses e meses, sem poderem conviver com aqueles que mais amam, sem terem uma única visita dos seus familiares mais próximos.
Sem receio de ser desmentido, posso afirmar, com convicção, que esta é uma faceta da pobreza, que muita gente desconhece. É certo que não é uma indigência de bens materiais, mas é uma carência de afecto, de valores humanos, de ausência de carinho, estigma que leva muitos dos idosos ao desespero, à revolta e à depreciação da pessoa humana.
Nada há mais deprimente do que uma pessoa aperceber-se que está a ser ostracisado, votado ao abandono pela sociedade, especialmente, pelos que ama acrisoladamente, pelos seus familiares mais próximos.
É difícil, sei-o bem, mas a sociedade contemporânea devia encontrar um modo de poder alterar esta situação, criando mais “Lares de
Idosos ”ou apoiando melhor os que já existem, pois, quer nós queiramos, quer não, estas instituições de solidariedade social, são cada vez mais necessárias, nos tempos que correm e nesta sociedade trepidante e totalmente stressada.
É verdade que já vai havendo programas sociais de “Turismo Sénior”, de “Lares de Idosos”, de “Férias para a Terceira Idade”. No entanto deviam ser criados mais programas que dessem dignidade a muitos daqueles que se encontram no limiar da última etapa das suas existências e muito pouco podem contar com o apoio dos seus familiares.

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