27 de março de 2008

Opinião

Sinais dos tempos?

Por Maria Matos

Andava eu a “palmilhar” o corredor da fama (confesso que não é propriamente o que mais gosto de fazer) quando me deparo com uma afirmação, entre outras que não são aqui chamadas de momento, no mínimo irrisória: “Eu sou lésbica!” – isto a letras garrafais, claro.

Bem, entre o meu espanto e a verdade dos factos é de admitir que apenas está uma sociedade que eu, cada vez mais desconheço, e cada vez menos me sinto identificada, e que vai comendo tudo o que lhe cai no prato (faço parte da nova minoria, daí não entender as modas da actualidade).

Solange, nome da personagem que abordo aqui, de 31 anos, apresentadora na SIC Radical, do programa “Curto Circuito” está, e passo a citar, “a ser inundada por uma chuva de mensagens de apoio e de parabéns desde que assumiu publicamente a sua homossexualidade” – assim vem anunciado no texto que li – “A apresentadora justifica a sua revelação como um incentivo à quebra de preconceitos e uma forma de encorajar os jovens a seguirem-lhe os passos”.

Fico confusa quando estas pessoas querem sempre que outras sigam os seus passos, e mais confusão me causa neste meu cérebro em vias de extinção quando associam a vida pública com a vida privada, e acham-se pessoas mais realizadas profissionalmente com os atropelos que não têm nada de novo para nos dar.

Mas nos dias de hoje é cada vez mais comum este tipo de afirmações do que à vinte anos atrás certamente. Mas também não é menos certo que essas mesmas pessoas não deixaram de ser o que afirmam ser por causa de entraves que foram encontrando à sua decisão. O que tais palavras trazem de novo agora, no século XXI?

À dias li também num jornal que o vocalista dos R.E.M. disse em público que era homossexual, coisa que para os fãs (ou não) mais atentos não parece novidade nenhuma, e no entanto é de perguntar o que trouxe de novo para os mesmos, para o próprio, um homem já com os seus 50 anos, se não estou em erro?

Para mim estas formas de se afirmarem são um pouco imodestas. Até porque cada vez é mais difícil uma pessoa se afirmar como cristã, como pessoa crente, o que à partida deveria ser mais aceitável e torna-se mais duro de entender, do que de volta e meia alguém lembrar-se de dizer: “Eu sou homossexual!”. É mais difícil um casal com mais de dois filhos serem aceites pela sociedade sem serem vistos como pessoas que não tomam os devidos cuidados, do que um casal homossexual fazer uma vozearia porque se acham com o direito de adoptar crianças. A realidade é esta, são sempre vistos como os corajosos, os ousados, os lutadores (não sei do quê), que recebem os parabéns de muita gente, e no entanto não têm nada para dar à sociedade. Corajosos, lutadores, e que merecem todo o apoio daqueles que ainda estimam a família são aqueles que mesmo perante as dificuldades económicas, mesmo sem apoios nenhuns, principalmente do Estado e que mesmo assim arriscam, e bem, a constituir família são todos esses casais anónimos, que vivem as suas vidas da forma mais particular, só entre eles e Deus, e vêem-se sozinhos nesta sociedade que só lhes dão alfinetadas. Sinais dos tempos?

Arrisco mesmo a dizer que é muito mais difícil uma pessoa assumir-se como mulher consagrada sem ouvir um triste comentário de que teve um desgosto amoroso que a levou a entrar para um convento e ainda para mais ser rotulada com a expressão “coitadinha” (só resta saber se esse desgosto, aos olhos desta mesma sociedade, foi com um homem ou com uma mulher), do que sem mais nem menos, porque acordou atravessada na cama nesse mesmo dia de manhã e se lembrou de fazer tal afirmação, e essa é a maior porque ousou dizer tal coisa num país que é visto por essas mesmas pessoas como um país conservador, hipócrita, com mentalidades pequenas e mesquinhas.

Estamos em tempos difíceis, mas se continuarmos assim no deixa andar, tempos ainda mais difíceis estão para vir.

0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More