9 de junho de 2007

A Família e a Violência na Escola

Na sequência do artigo do mês passado (colocado no blogue a 15 de Maio), foi-me posta a questão: o que pode fazer a família para lidar com a violência na escola?

Começo por responder com uma generalidade: tudo o que se passa na escola tem a ver com a família. Só uma concepção totalitarista do Estado pode subtrair a educação à família, retirando os educandos do controle e consequente responsabilidade da família. O que acontece na escola, os seus problemas relacionais são reflexo do meio social, das suas carências, conflitos e expectativas e especialmente do meio social básico e nuclear, a família. Quando falamos de família neste contexto, não consideramos necessariamente a instituição família concebida como união estável assente em relações afectivas saudáveis entre os seus membros, mas a convenção sociológica que abrange apenas um ou os dois progenitores em variadas situações jurídicas e relacionais. A maior parte das crianças violentas procedem de núcleos monoparentais de que, as mais das vezes, está ausente a figura masculina ou de famílias elas próprias disfuncionais pela instabilidade e conflitualidade dos laços afectivos e relacionais e também pela insegurança económica. Estas “famílias” são parte do problema da violência na escola. A violência está presente no meio social, penetra as relações familiares e faz parte do quotidiano das famílias e consequentemente das crianças. “As crianças são o reflexo. Se uma mãe tem uma atitude destas, como é possível esperar que o filho respeite os professores, os funcionários ou mesmo os colegas?” – comentava, outro dia, um docente do agrupamento de escolas onde uma professora foi agredida pela mãe de uma aluna. Além das atitudes agressivas, há muitos outros comportamentos de predisposição e incitação à violência. Muitas das recomendações dos pais aos filhos estimulam a sua competitividade e agressividade. Recordo-me de numa acção de formação de professores para os sensibilizar para o trabalho cooperativo dos alunos, uma professora assumir o seu papel de mãe para defender energicamente que aconselharia sempre o filho a usar todos os meios legítimos ou não para ser o primeiro. “Não te deixes ficar atrás…”, “Chega-lhes também…” são conselhos frequentes e cúmplices de pais embevecidos com a agressividade, “desenrasque” ou provocação dos seus pimpolhos. Muitas das sementes da violência na escola começam em casa com a falta de autoridade e consequente falha de regras, a ausência ou esbatimento dos modelos de comportamento dos pais e também pelo abandono, abuso e frustrações de que são vítimas. A família é sempre parte da solução do problema da violência escolar. Na medida em que é um espaço de convivência respeitosa, de interiorização de regras e valores, de cooperação e valorização do trabalho, de equilíbrio afectivo, de autenticidade de relações, cultiva a responsabilidade em clima de justiça e correcção positiva e cria atitudes fomentadoras de relações sadias que se transferem para o ambiente escolar. Os pais devem seguir de perto a actividade dos filhos na escola. Quando pressentirem indícios de comportamento anormal, devem contactar a escola, informar-se das reais circunstâncias e possíveis condicionantes da violência e colaborar com os professores, direcção e outros agentes sociais no meio. O acompanhamento dos filhos exige uma atitude lúcida, serena e cooperante para avaliar situações, identificar causas e mobilizar apoios adequados. Uma resposta agressiva dos pais pode significar que eles são parte do problema. A colaboração dos pais é indispensável para a escola fazer frente à violência. Está provado em todo o mundo que as únicas medidas eficazes são aquelas que passam pela mobilização da comunidade, pela atitude cooperativa de professores, alunos, familiares, autoridades e associações de âmbito local no combate às causas e adopção de medidas que visem a integração social dos alunos e suas famílias. Os novaiorquinos conseguiram resultados significativos nos bairros socialmente desfavorecidos de Bronx e Harlem, pondo as escolas a trabalhar com os encarregados de educação, na sua maioria mães afro-americanas, solteiras e de fraco nível económico. Outras experiências europeias confirmam estas conclusões. Há outra dimensão da violência na escola que exige a atenção, vigilância e intervenção dos pais: as crianças vítimas da violência. Estudos fundamentados concluem que cerca de metade das crianças episodicamente e 10% regularmente, foram no percurso escolar vítimas de bullying, termo inglês usado para designar o padrão de comportamento física ou psicologicamente agressivo dos mais activos e fortes que agride, prejudica, humilha e chantageia os mais fracos e vulneráveis. Ocorre frequentemente em diversas situações incluindo a família e o trabalho e, na escola até em colégios internos e jardins infantis. As educadoras que o digam. Analisando situações da vida do seminário no meu tempo não tenho dúvidas em inclui-las neste tipo de violência. Os pais devem ter em atenção os sintomas: quando a criança sem motivo aparente mostra relutância em ir para a escola, quando com frequência “perde” o dinheiro para o lanche, se queixa de coisas roubadas, apresenta equimoses ou golpes, se mostra ansiosa, pode estar a ser vítima de abuso de colegas. A solução passa por conversar com a criança duma forma compreensiva, por ajudá-la a abrir-se e dar indícios que levem à identificação das causas e possível solução do problema. Não se deve encorajar a criança a reagir violentamente, mas aconselhá-la a evitar as provocações, a andar acompanhado, juntando-se ao grupo de amigos, no recreio, no caminho, nos lugares de encontro. Com serenidade, esclareça-se a situação com os responsáveis e colabore-se ou promovam-se programas de actuação na escola. È possível que nem a escola nem a comunidade esteja desperta para este tipo de problemas. É preciso começar. Por vezes, será necessário o apoio de especialistas. Não se esqueça, no entanto, que o importante é uma acção persistente e concertada de previsão, acompanhamento e actuação serena e vigilante de toda a comunidade envolvida na escola.


por Octávio Gil Morgadinho - colaborador do Jornal da Família

0 Comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More