O casamento tem início num namoro equilibrado

Quando o Deus Pai quis que a humanidade existisse, Ele estruturou tudo na família, com o casal. O Senhor fez o homem, mas viu que seu coração estava vazio e disse a Adão...

As ameaças contra a Família

No Sínodo dos Bispos, em 1980, sobre a família, os Bispos apontaram os pontos mais preocupantes: “a proliferação do divórcio e do recurso a uma nova união por parte dos mesmos fiéis...

Os 'boys'

Eles acham que são os donos do país. Portugal é deles. O Estado pertence-lhes. Vale tudo. Estão acima da lei e das deontologias. Não conhecem ética em política, nem educação...

A saúde mental dos portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas...

O trabalho, dom e direito

A sociedade portuguesa e internacional, vive uma situação de crise generalizada e de aumento das desigualdades sociais...

Longe vão os tempos

Longe vão os tempos dos preconceitos culturais em que se aceitava que era a mãe que tinha de cuidar dos filhos...

À procura de um sonho

Toda a gente tem sonhos. E segredos. E pecados. Quem não sonha está morto; quem não se resguarda é tonto; quem não peca é santo...

20 de Maio de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #04


4. Transmissão da fé

Falávamos no último artigo sobre a proposição da fé, ou seja, sobre a proposta que quer explicitar o dom feito por Deus a todo o ser humano. Continuando nessa linha quero, agora, partilhar convosco algumas reflexões sobre a transmissão da fé.
Mas ao falarmos em transmissão da fé não estaremos a dizer o mesmo que proposição, ainda que utilizando outra palavras, poderão perguntar alguns dos nossos leitores. Claro que estas duas realidades estão relacionadas e em certo sentido implicam-se uma à outra, mas em rigor referem-se a dimensões diferentes.
Vimos como a fé é um dom que Deus oferece propondo. Vimos também que esse dom tem de ser consciencializado no viver concreto das pessoas e que aí entra necessariamente o testemunho e a relação com os outros, através dos quais o dom/proposta de Deus se torna visível. Pois bem, é também neste âmbito que podemos refletir sobre a necessidade da transmissão.
Vou fazer isso a partir de uma dupla perspetiva.
Todos sabemos como a fé se concretiza numa relação pessoal com Jesus Cristo, vivida por cada um no contexto da comunidade crente. Nesta relação, como em todas as relações, existem atitudes, comportamentos, linguagens (para só falar em algumas dimensões) que a podem facilitar, aprofundando-a e tornando-a mais intensa e viva,  ou que a podem dificultar e, mesmo,  impedir de crescer.
Ora bem, esses comportamentos, atitudes e linguagens têm de ser aprendidos, pois ninguém nasce automaticamente com eles. Aliás, todos somos capazes de perceber  o motivo pelo qual alguém, que não cresceu num ambiente onde se promoveu e aprendeu a relação de gratuidade e dom que é o amor, terá sempre muita dificuldade em compreender essa linguagem e mais ainda em viver dessa maneira. É que não lhe foram transmitidas 'as letras' com que se diz esse amor, nem 'os gestos' com que se vive.
Mas se á fé é essencialmente uma relação (e esta é a primeira perspetiva que queria destacar), ela concretiza-se, depois, em determinadas formulações e conteúdos, em maneiras precisas de celebrar, em  formas características de  organizar a comunidade, que precisam igualmente de ser transmitidas para poderem ser assumidas e vividas (e esta é a segunda perspetiva a que me queria referir).
A vivência da fé não é pois uma coisa automática nem mágica. Ela implica um longo e complexo processo que passa pelo dom, pela proposta e pela transmissão. O dom está sempre garantido por Deus, que a todos o concede de uma forma gratuita e amorosa. Mas esse dom é uma proposta que tem de ser acolhida em liberdade por cada um. Proposta que necessita do testemunho dos outros para poder ser reconhecida. Proposta que implica e exige certo tipo de transmissões para poder ser respondida.
Porque nem sempre temos cuidado com o necessário carinho e atenção todo este processo, deparamo-nos, hoje, com pessoas que não acolhem o dom porque não percebem a proposta, ou mesmo percebendo-a não lhe conseguem verdadeiramente responder, pois não lhe foram feitas as transmissões necessárias que facilitem essa resposta.
Para mim esta realidade ajudou-me a entender como a fé não passa automaticamente de pais para filhos, de marido para mulher, de irmão para irmão, ou de amigo para amigo. É muito importante viver e testemunhar (propor), mas não chega, pois é igualmente necessário transmitir as linguagens, os comportamentos e os conteúdos com que se concretiza a experiência da fé.
O tempo de natal, que estamos neste momento a celebrar, sublinha bem esta realidade. Deus quer que todos possam aceitar e viver o dom que ele mesmo é.  Para isso fez-se como um de nós, de modo a que a sua proposta pudesse ser mais facilmente acolhida. E não se contentou com isto, pois ele mesmo, à nossa maneira, mostrou qual o caminho a percorrer para poder acolher e viver esse dom. 
Este é verdadeiramente o mistério do natal. Um Deus que é dom, proposta e transmissão de si mesmo. Um Deus que assume a nossa 'maneira de ser', para que nós possamos assumir a dele. É isto que celebramos, por isso acredito sinceramente que é possível outro futuro e que podemos ousar trilhar novos caminhos neste ano de 2013 que estamos agora a começar.

por Juan Ambrósio

17 de Maio de 2013

A esperança em falta


Um quarto das dezenas de milhares de crianças que integram a população portuguesa caiu num estádio de pobreza e, por isso, tem fome. 

Mas as crianças porquê ?

Se não meteram ao bolso milhões para modernização de um país medieval vindos dessa Europa, agora tão decadente, que já parece o leão moribundo do livro da minha 3.ª classe, todos lhe dão pontapés, tamanha é a sua agonia. 

Se não abriram a boca para vomitar linguagem obscena, se não lançaram aos quatro ventos linguagem de apelo à degradação humana, enquanto negação de valores, aplaudida, adoptada e mesmo querida para uns quantos, para disso tirarem deliberado proveito.
Se nem sequer lhes ensinaram as muitas misérias e as poucas grandezas da nossa história e os seus actores dominantes, fazendo deles seres incompletos, vazios, incapazes de resistirem à frustração, às dificuldades do mundo, por isso reclamando o fácil, o imediato e o sem limite. 
Se arribados às escolas já proclamam alto e bom som, ensinados pelos pais, estes já nascidos num mundo libertino, em que cresceram, e geraram, necessariamente que por isso, produzindo fruto tocados pela podridão, que Deus não existe. 
Se o exemplo que os rodeia é de uma família em que hoje o pai é um, amanhã o companheiro da mãe é outro; se hoje a mãe é uma, mas amanhã a companheira do pai é outra; se hoje os irmãos são uns, amanhã são outros trazidos pelos companheiros a que acrescem, depois, mais uma leva pequena nascida das novas junções,  a que chamam eufemísticamente uniões, geradora de uma brutal confusão, angústia de identidade, revolta, insegurança e dor sem fim. 
Se não roubaram os cofres do Estado, para enriquecerem à custa do sangue e suor alheio.
Se não se dedicaram a todo o tipo de tropelias protegendo-se uns aos outros, como fez uma legião de adultos, estes passeando-se de cara lavada, quando deviam tingi-la de negro de fuligem de chaminé, ocupando postos de relevo, mas sem ética e nem moral, de que bem prescindem e vivem sem ela. 
Se lhes apresentaram um país que nunca teve uma história limpa, mas que eles não construíram, agora erguida à margem da verdade, da lisura, da transparência e de qualquer dignidade. 
Se lhes apresentaram uma terra que parece varrida por um temporal de maldade, repleta que foi de ilusões, agora de cabeça caída, só se esperando que não crie pedintes a cada esquina e ainda mais ladrões a cada canto. 
Se a oportunidade é toda para uns quantos, pouco para outros e nada para muitos. 
Se elas são vítimas da violência e abuso, quase parecendo que vivem num mundo de lobos. 
Se assim é, como é, porquê, pergunto-me, as crianças são, agora, vítimas da pobreza, se os seus estômagos não estão cheios nem para aí tendem? 
Como foi possível uma desgraça destas?
Tem que se acreditar na sua candura e na sua pureza, na sua capacidade de um dia  modificarem o mundo, em contrário dos adultos alguns deles responsáveis pelo grande sofrimento deste povo, que não prestam, tem que se acreditar que eles são capazes de limpar a sujeira desta terra, embora demore tempo. 
È preciso ter coragem para tudo mudar para que nada fique na mesma. O que muito nos falta hoje é esperança; o que abunda é medo desta terra e de muita da sua gente, ainda resfolgando a plenos pulmões. 
Falem, comecem já, às crianças do dever de verdade, do dever de proclamarem a justiça, da seriedade nas relações humanas, do respeito pelos mais fracos, pelos velhos, mulheres, crianças e doentes, de justa retribuição do trabalho, a que nunca se procedeu, da necessidade absoluta de um trabalho sério e eficaz em bem de todos, das poucas figuras ímpares da nossa história; incutam-lhes a esperança que, perigosamente, falta aos adultos. Por fim desconstruam a ideia proliferante de que tudo tem origem na matéria, à revelia de um Senhor da história. 
Não tenham vergonha; aqueles que retiraram as cruzes das salas de aula e hospitais também não estão felizes, embora pensassem que iam ficar. 

Armindo Monteiro

15 de Maio de 2013

Gente de Fé



Minha mãe faleceu muito jovem deixando órfãs duas filhas pequenitas: eu e a minha irmã mais velha, que andaria pelos cinco anos. De coração desfeito por não poder tomar conta das duas sobrinhas, Maria pegou na mais pequena e levou-a para sua casa. “A criança é pequenina, precisa de colo. Quando for maior volta para o pé do pai.” Tudo lhe parecia natural, desde que a intenção fosse a de ajudar alguém. Porém, passados poucos anos, a criança adoeceu gravemente e todos lhe diziam que se não morresse ia ficar incapacitada, que a responsabilidade era grande, que o melhor era ela levar imediatamente a criança ao pai. “Ele que a fez, ele que a cuide. Ele é que tem a obrigação de a tratar. Como podes tu cuidar da criança, se tens de ir trabalhar?” Mas Maria não desistiu. Não pensava em si. Pensava na criança, em como sofreria se de repente ficasse sem o seu apoio, sem o colo que tinha para lhe dar. Com enorme determinação, procurou médicos e remédios por todo o lado. Vendeu todo o seu pouco ouro, empenhou tudo para que nada faltasse à criança. “Vais ficar bem, não tenhas medo!” “Eu já venho. Não tenhas medo!”, eram sempre as suas palavras quando se despedia da menina. “Não tenhas medo! Não tenhas medo!” E sem lágrimas visíveis, com uma força incrível, ia vencendo os argumentos dos arautos das desgraças que apareciam por todo o lado. “ Escola? Pôr a criança na escola? Deixa-a mais é estar em casa, coitadinha!” “Não ligues. Tu consegues. Não tenhas medo. O médico disse que era bom se conseguisses ir. Se te sentires mal, venho logo buscar-te.” A sua Fé transmitia-se e a criança sabia que se algum mal lhe acontecesse era apenas temporário. Que tudo passava. “Já passa, já passa! Não tenhas medo! Tu consegues, tu consegues!”, repetia constantemente.
Maria rezava. Muitas vezes. Na igreja, mas a maior parte das vezes em casa, no silêncio da noite. Que rezava ela? Que pedia? Que prometia? Nunca ninguém soube. Tinha uma pequena lamparina à cabeceira, acesa noite e dia. “Sabes, esta luz é muito importante. Olha, estão aqui os pavios. Quando se apagar esta chama põe outra, para estar sempre acesa a luz, sim?” E lá estava aquela luzinha, noite e dia, a lembrar que … A lembrar o quê? Maria falava pouco de Deus. Como? Se ela sabia que as suas palavras eram pequenas para dizer da sua tão grande Fé. E para quê? Deus estava sempre com ela. Em cada gesto de cuidado, de ternura, na alegria pelas coisas mais pequeninas. “Já viste aquele passarinho?””Olha, a plantinha, pegou!” Punha cascas de ovos e borras de café nos vasos e as plantas cresciam viçosas e davam flores. Maria ria. “Com a graça de Deus! Tudo precisa de carinho, até as flores!” Maria cantava. Quando cantava todos se punham em silêncio, porque era linda a sua voz. E ela ficava feliz porque as pessoas ficavam felizes quando cantava. “ Maria, canta a do barco negro…Maria, canta só mais uma…” E ela cantava, cantava, como se dentro dela soassem hinos de louvor.
Maria não dizia mal de ninguém. Nem dos ladrões, nem das prostitutas, nem de quem pedia esmola por necessidade ou vício, de ninguém. “Que sabemos nós da vida deles, coitados? Sabemos lá como chegaram a isto? . Olha, se puderes, nunca negues ajuda a ninguém que precise. Todos somos filhos de Deus…”

A menina, por quem Maria tanto lutou, não se curou. Mas conseguiu fazer um percurso de vida quase normal. Estudou, empregou-se, casou, foi mãe, hoje é avó… Conseguiu tudo aquilo pelo qual Maria rezou.
Maria envelheceu e viveu até aos seus últimos dias sempre a pensar nos outros. Para ela tudo estava sempre bem, nunca precisava de nada. De seu, tinha duas preciosas “joias” que sempre a acompanhavam: um Terço e uma pequena pagela com Jesus ressuscitado. 
Sempre que nela pensamos, fica-nos uma doce gratidão, uma ternura infinita, uma Paz enorme, uma certeza absoluta: Deus existe. E Ele está no meio de nós, sempre que a Bondade se manifesta!

Fernanda Ruaz

13 de Maio de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #03


3. Proposição da fé

Como os nossos leitores devem estar lembrados, terminámos o artigo anterior como uma questão na qual nos interrogávamos sobre a situação daquelas pessoas que afirmam querer ter fé e, no entanto, dizem não ser capazes.
A pista mais fácil para lidar com esta questão seria assumir que essas pessoas, na realidade, não falam verdade, porque no fundo o que pode estar a acontecer é que não se empenham o suficientemente a fundo para poderem assumir a opção da fé. Como todo sabemos, a atitude crente implica a liberdade e a vontade e leva a compromissos e a mudanças, o que pode fazer com que haja pessoas que não estejam verdadeiramente interessadas em assumi-la.
Não nego que este raciocínio pode ser confirmado em situações da realidade, no entanto, continuo a pensar que ele não explica tudo e nem sequer vai ao fundo da questão.
E penso isto, em primeiro lugar, porque encontro neste tipo de pensamento um preconceito que acaba por fazer com que não ‘levemos a sério’ quem nos diz querer ter fé e não ser capaz. Se assim for, o diálogo fica comprometido, pois não posso exigir que o outro ‘me leve a sério’ se eu começo por mostrar que não ‘o levo a sério’ a ele. Julgo, pois, que devemos ir por outros caminhos.
Já afirmei que a fé é um dom de Deus, que requer a liberdade humana, dom que Deus dá a todos e a que todos são chamados a responder. Mas pode acontecer (e estou convencido que acontece) que existam pessoas que não sejam capazes de reconhecer esse dom.
Na verdade se olharmos para o nosso percurso de fé, todos nós seremos facilmente capazes de perceber que nesse itinerário não descobrimos a fé simplesmente por conquista própria, mas porque outros nos falaram nela e, sobretudo, no-la testemunharam com as suas vidas. Também seremos capazes de perceber que a nossa resposta foi facilita e fortalecida com o apoio dessas mesmas pessoas. Vendo as coisas a partir deste prisma talvez sejamos capazes de entender que esse dom de Deus dado a toda a pessoa, só se torna efectivamente real na vida de cada um, quando outros nos ajudam a conhecê-lo e a percebê-lo e a responder-lhe.
Já a partir desta afirmação podemos começar a entender que a fé não é simplesmente uma ‘coisa de cada um’. É verdade que cada um tem de dar a sua resposta pessoal, mas essa resposta só se torna possível e concretizável com a entrada em cena de outras pessoas.
Mas voltemos à nossa questão. Para termos fé não basta, pois, o dom de Deus. É necessário também que cada um  (re)conheça esse dom enquanto tal e, para isso, torna-se necessário que outros no-lo testemunhem, e proponham.
A proposição da fé surge, assim, como um elemento fundamental do próprio processo da fé. E trata-se de um elemento que precisa de momentos de explicitação.
Se pensarmos no caso da educação de uma criança talvez isto possa ser mais claro. Todos sabemos que se no seio da família a criança vai tendo acesso a essa maneira de viver que a fé possibilita e concretiza ela cresce a saber que essa é uma possibilidade real na sua vida. Mas mesmo nesta situação, os pais terão de ter momentos em que devem falar explicitamente dessa maneira de viver, dizendo que ela decorre da fé. A partir daqui, a criança não só percebe que essa maneira de viver é possível e real, mas também que ela se deve a um dom concreto, um dom oferecido por Deus, o dom da fé.
Propor a fé de uma maneira implícita (através da vida do dia a dia) e de uma maneira explícita (em momentos em que se lhe dá nome e se fala sobre ela) é, pois, um dos elementos indispensáveis para que as pessoas possam viver e assumir esse dom.
Em certo sentido, esta dimensão de proposta está já presente no próprio dom que Deus faz, pois, se por um lado ele o oferece a todos, por outro, essa oferta nunca é uma imposição, mas um convite, uma proposta, que, isso sim, deseja ardentemente que seja aceite. 

por Juan Ambrósio


11 de Maio de 2013

Olhai-vos nos olhos e…

Casamo-nos no dia 30 de Setembro de 1977. Os anos passaram-se rapidamente, demasiado rápido, para dizer a verdade.
Os momentos que mais alegria nos deram, foram aqueles em que nos sentíamos unidos para sempre, sobretudo a partir do nosso casamento. Foi desde aquele momento, em pé, diante de Deus, que nos olhamos nos olhos, olhamo-Lo a Ele e ligamos os nossos corações, nos laços do Seu Amor. 
Foi o ‘calor’ que provêm do Seu coração a manter o nosso amor vivo até hoje. Seguros no Seu braço caminhamos unidos com a mesma força, a mesma profundidade e a mesma ternura, daquele longínquo 30 de Setembro. Como fruto maduro deste amor, floriram outros momentos de grande alegria para nós. Entre eles, assumem particular importância o nascimento de cada um dos nossos filhos, que para nós foi fonte de uma felicidade imensa.
Com o seu nascimento, a aventura da sua vida: o baptismo, a primeira comunhão, o crisma, a entrada na faculdade e a conclusão dos estudos universitários, o seu matrimónio e o nascimento dos 3 netinhos. Tudo isto preenche verdadeiramente a nossa vida de esposos e pais.
Não nos faltaram também, aqueles momentos mais sombrios, que, como em cada pintura, ajudam a realçar a luz, e que tecem, juntamente com os momentos felizes, a tela da nossa vida.
“Como mulher, num determinado período, senti a falta de um diálogo em família, porque o meu marido assumiu uma responsabilidade pública que o ocupava demasiado. Coisas que sucedem. 
A necessidade de maior recursos económicos para a família, pode absorver demasiado tempo, prejudicando a harmonia do clima familiar respirado. Mas isso acontece quase inconscientemente. 
Todas essas preocupações consomem muito esforço, muita energia; e muitas vezes reduzem a disponibilidade para os outros, a vontade de dialogar, de trocar afectos e ternura, de dar atenção, enfim, de comunicar coisas importantes e necessárias, sobretudo num contexto matrimonial.
Muitas vezes, é uma situação impossível de evitar, sobretudo se está em causa um bem maior, neste caso o bem da família. O ideal é conseguir uma coisa, sem descurar a outra. Mas pode-se superar tudo isto, oferecendo tudo a Deus e pedindo-Lhe constantemente a Sua ajuda. 

Se o nosso matrimónio iniciasse hoje, não desistiria de amar a minha mulher, como a amei até agora. Dedicar-me-ia totalmente à família, orientando cada membro, porquanto me é possível, para uma vida sã e cristã. Evitaria, a todo o custo, que pessoas estranhas interferissem na nossa vida familiar, porque em algumas ocasiões podem perturbar a nossa convivência familiar, serena e cheia de amor. Tentaria equilibrar melhor a ocupação profissional com a maior dedicação à família, sob pena de lhe faltar algum bem, mais secundário. O que nos mantém unidos é o amor que cada um de nós sente pelo seu cônjuge e pela nossa família, e que nos leva a darmo-nos ao outro, aos nossos filhos e à comunidade.
Queremos que o nosso matrimónio dure até à nossa morte. Desejamos que a nossa fé continue a ser viva e luminosa, queremos respirar paz e compreensão recíproca.

Casal Davide e Maria Antonieta

9 de Maio de 2013

Divórcios - O impacto da separação dos pais nos seus filhos


É difícil avaliar e quantificar, em números, o impacto que tem nos filhos quando os pais se divorciam, não obstante Todos os analistas são unânimes em afirmar que os filhos são as vítimas, os grandes sacrificados.
Quando a separação é traumática ficam sequelas na mente e na personalidade das crianças, que se não se conseguem processar, elaborar e superar, podem afectar a sua vida.
Para precisar mais ainda, basta pensar no sofrimento que sentem os filhos, quando vêm discutir os seus pais continuamente, incluindo a falta de respeito. Aquelas duas figuras básicas, na sai vida, aqueles a quem querem tanto e a quem se confiam, deixam de ser seus modelos. E nasce o desencanto.

Os filhos não desejam a separação dos pais
Fazendo uma interpretação do livro do Dr. P. CASTELLS, “Los hijos no se divorcian de sus padres”, pode-se afirmar que os filhos não desejam a separação dos seus pais. Facto que pode levar a uma consideração tão profunda e delicada, quanto frequente.
Os filhos divorciam-se? É necessário uma resposta reflexiva e serena que pode concluir, afirmando que não existem os ex-filhos, mesmo que existam os ex-esposos.

A separação na actualidade
Se as tendências actuais prosseguem, é previsível que se aproxime o número entre os casamentos e as separações. A família é um núcleo básico de convivência e por isso mesmo, um núcleo susceptível de conflictos. Entre iguais e diferentes gerações. Talvez a solução não esteja tanto em romper os laços, mas em solucionar os conflictos.
Atendendo que em qualquer convivência surgem conflictos, o óptimo será educar Na cultura do diálogo assertivo e conciliador, a partir da escola e da família.
A sociedade pode colaborar proporcionando o desenvolvimento da cultura do diálogo assertivo e conciliador.

Relações nos filhos de pais separados
Mais de 50% das crianças/adolescentes actualmente em tratamento a nível mundial, estão aí como consequência da separação de seus pais. Deve especificar-se que se trata, na sua maioria, de separações traumáticas.
A reação que está presente em todos os casos é a depressão.
Quando as crianças são pequenas, produz-se, o que doutor CASTELLS, chama de depressão mascarada, cujos sintomas podem ser: irritabilidade, tiques nervosos, neuroses, insónias, inadaptação, medos, insegurança.
Se a separação ocorre na adolescência a reacção é pior, porque se lhe associa a conflitualidade que de por si, acontece nesta etapa da vida.

Conclusões
O futuro das crianças, depende em grande parte das decisões de seus pais. O futuro emocional das crianças de pais separados está em jogo.
Diz-se, normalmente, que é por uma má convivência que uma separação, porém a separação tem sempre um impacto negativo.
A uma má convivência, podem-se aplicar melhor soluções que à separação. Os filhos não se divorciam, porém, se a relação com os seus progenitores não está bem ajustada e a frequência das vivências comuns pai/filho (a) mãe/filho (a) não é a mais adequada, ficará afectada, com grande probabilidade, a sua futura estabilidade matrimonial.
Superar o trauma, que supõe uma ruptura matrimonial nos filhos e nos próprios sujeitos que a decidem, necessita um processo complexo e difícil que levanta a interrogação? Não seria melhor, arreglar, antes que criar ruptura com aquilo que vai mal?
Psicologicamente falando, seria mais rentável e para isso se pode aplicar o diálogo assertivo e conciliador na comunicação familiar.

Mª Aurora de Santiago – psicóloga, in La Sagrada Familila, Agosto/Setembro 2009, Ano cx Nº 1418

6 de Maio de 2013

Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé #02


2. O dom e Deus.

Com bastante frequência, pelos sítios onde vou andando e no contexto de várias atividades, tenho escutado está interrogação, muitas vezes dirigida diretamente a mim: se a fé é um dom de Deus porque há pessoas que dizem não ter fé? 
Também já várias vezes escutei pessoas com bastante relevância na nossa sociedade afirmarem que não tinham sido agraciados com o dom da fé, o que, apesar de ser uma formulação diferente, acaba por nos remeter para a mesma questão inicialmente formulada.
Como é óbvio, a temática não se apresenta de fácil reflexão, mas em todo o caso atrevo-me a deixar aqui algumas pequenas pistas que não pretendem ser mais do que uma ajuda à reflexão que cada um é convidado a desenvolver.
Começo por afirmar algo que para mim é um pressuposto e base de toda a minha reflexão acerca deste assunto. A fé é um dom gratuito de Deus dado a todo o ser humano. A razão que me lava a fazer esta afirmação tão categórica é , no meu entender, muito simples. Se Deus está verdadeiramente comprometido com a felicidade e salvação do ser humano, não me parece que possa fazer sentido afirmar que só a alguns (ainda que certamente sejam muitos) ele conceda o dom da fé, pondo a possibilidade que não o conceda a outros (mesmo que possam ser poucos), pois desta maneira estaria, ele próprio, a dificultar a felicidade e salvação dessas mesmas pessoas.
O facto de existirem pessoas que não têm fé, não pode, pois, do meu ponto de vista, ser remetido a Deus, como se ele fosse o causador dessa situação. Deste modo, torna-se necessário ensaiar outros percursos e ousar outros olhares que nos permitam tentar  lidar com esta realidade.
Sugiro, então, mais uma pista. A fé sendo indubitavelmente um dom de Deus, pressupõe, igualmente, a resposta livre do ser humano. Ou seja, o dom é de Deus, a iniciativa é sua e trata-se de um gesto totalmente gratuito da sua parte. Deus concede-nos o dom da fé porque nos ama, porque quer a nossa felicidade, o nosso bem, a nossa salvação.
Mas esse dom, não é concedido sem nós e muito menos contra nós. Porque nos leva a sério, e outra atitude não se poderia esperar da parte de quem ama, Deus não impõe o seu desejo, antes o propõe, aguardando pacientemente que ele seja reconhecido, entendido e respondido. Claro que simultaneamente faz tudo o que está ao seu alcance (seja-me permitida esta maneira tão humana 
de falar de Deus) para que essa sua proposta possa ser aceite. Em todo o seu agir, contudo, jamais ousa ultrapassar a fronteira da liberdade de cada ser humano.
A questão que levantámos no início desta pequena reflexão, deve ser então equacionada e refletida a partir desta perspetiva. Tendo Deus concedido o dom da fé a todo o ser humano, nem todos o reconhecem, o entendem e nem todos lhe respondem.
Para o caso daqueles que livremente respondem não, a solução parece ser relativamente simples, se bem que nos deixe algumas perplexidades: Não têm fé porque não querem. Claro que isto levanta muitas questões, pois podemos interrogar-nos como é que uma pessoa, tendo percebido o dom que Deus lhe faz, não o aceita e não lhe responde positivamente. Apesar de tudo, estas dificuldades são certamente menores do que aquelas que resultariam de atribuir essa situação ao agir de Deus, estando diretamente relacionadas com a realidade da liberdade humana. 
A questão torna-se, no entanto, mais bem complicada, naqueles casos, e eu conheço alguns, tal como certamente os nossos leitores conhecem, em que as pessoas afirmam que querem ter fé, mas efetivamente não têm.  A ela tentaremos responder no próximo número do nosso Jornal.

por Juan Ambrósio


3 de Maio de 2013

Temos menos filhos


Em 2010, nasceram em Portugal 101.381 crianças, em 2011, 97.200. De acordo com uma notícia do Público do dia 5 de Novembro, entre Janeiro e Setembro deste ano foram feitos apenas 67 mil testes do pezinho, menos 6500 que em igual período de 2011. 
De acordo com a mesma notícia, “tal significa que 2012 ficará para a história como o ano em Portugal com menos bebés de que há registo”. Esta é a segunda vez que neste ano refiro este tema neste espaço e faço-o porque considero que é um dos factos mais preocupantes da nossa vida contemporânea que ameaça o futuro colectivo. 
Podemos constatar que este assunto por vezes é objecto de alguns discursos, faz manchete de alguns artigos, é abordado nalguns seminários técnico-cientificos. No entanto, nunca o vi ser abordado de forma sistemática e consistente no desenho de políticas públicas, nem tão pouco o vi ser debatido de forma aprofundada para além de recorrentes abordagens de caracter marcadamente estatístico. E é do nosso futuro que se trata! Quando procuramos identificar alguns dos factores que levam as pessoas a ter filhos verificamos que se trata de uma multiplicidade de variáveis que influenciam uma multiplicidade de decisões. 
Destacaria de entre aquelas que se apresentam como mais estáveis ao longo dos tempos, o instinto para a manutenção da espécie/ continuidade intergeracional e biológica ou o amor pelos filhos/ enriquecimento emocional e pessoal. Estas variáveis tendem no entanto a ter um peso surpreendentemente menor à medida que o estilo de vida instalado é predomoninantemente dominado pelo “ter” em detrimento do “ser”, isto é, o valor dos filhos é inversamente proporcional à ameaça que representam para o conforto dos seus pais. Trata-se de uma importante modificação comportamental de consequências catastróficas. A sua alteração requer atenção ao problema, intenção de alteração, vontade de actuação; requer visão estratégica, planeamento e acção consistente e continuada. Os países do Norte da Europa dão-nos boas pistas de como se pode fazer.

Maria do Rosário Carneiro
Investigadora do ISCSP



1 de Maio de 2013

Dignidade, Caridade e Justiça

Abria-se mais um serviço de uma instituição de solidariedade social. À margem, com suficiente aparato para se fazer notado, um grupo conotado politica e ideologicamente, gritava no coro orquestrado das manifestações: “Dignidade sim! Caridade não!”. Não sabemos o que eles entendiam por “dignidade” e por “caridade”. Nós temos consciência do que significam: a caridade é a forma suprema de respeito pelo outro, pela dignidade de cada pessoa. 
A pessoa é a “humanidade” do homem, o modo próprio de ser e de existir do indivíduo humano dotado de razão, consciente, capaz de pensar e querer, responsável pelas suas decisões e ações, que se afirma como um “eu”, como sujeito, e se relaciona com os outros indivíduos humanos como “tu” que são, por sua vez, sujeitos em relação a outros “eu”. A pessoa pertence a si, não é propriedade de ninguém, dispõe de si. A sua intimidade é inviolável. Sendo única a pessoa, não pode ser substituída por nenhuma outra; tendo uma intimidade e uma interioridade, não pode ser tratada como uma coisa; sendo livre, não pode ser usada como objeto, contra a sua vontade. Pela sua autonomia a pessoa é fim em si mesmo, nunca meio. Tem dignidade, merece respeito. Toda a pessoa é igual em dignidade e merece o mesmo respeito que qualquer outra pessoa, independentemente das suas condições e limites. A dignidade da pessoa é inalienável e irrenunciável. Não pode perdê-la nem recusá-la. A revelação cristã considera o homem, homem e mulher, “imagem de Deus”, “filho de Deus”. Jesus considera feito a si o que se faz ao mais pequenino dos seus. Estes seus são os mais pobres, os limitados, perseguidos ou desprezados.
A dignidade a que se refere o pensamento e a prática cristã é a dignidade da pessoa humana, a dignidade do homem, criatura de Deus orientado para um destino eterno. É inerente a todo o homem, não obstante a sua condição social, cultura, estatuto económico e convicções, opções ou modo de proceder. Nenhuma pessoa pode ser usada como instrumento nem avaliada exclusivamente por critérios de utilidade. Os direitos humanos são a expressão do respeito devido à pessoa, a toda a pessoa enquanto tal. 
A caridade é a suprema forma de respeito pela dignidade da pessoa. Pela caridade cada ser humano é respeitado por si próprio, como próximo, como irmão, como “imagem” de Deus é reconhecido na sua dignidade pessoal e sobrenatural. A caridade realiza-se em atos concretos, na relação com os outros. “O amor é paciente... não se alegra com a injustiça... Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Cor. 13, 4-7). Inclui o perdão, a reconciliação, a gratuidade total. É a fonte vital de amor que dá sentido e energia a qualquer ato humano. “Ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor [caridade], nada disso me adiantaria” (I Cor 13, 3). “O amor [caridade] é o laço da perfeição” (Col. 3, 14). A caridade é o amor na sua aceção oblativa e gratuita, o amor especificamente cristão. 
A caridade, expressão da relação filial com Deus e da relação fraterna com o semelhante é a base da justiça e da solidariedade humana. A Caridade ultrapassa as exigências da justiça, mas não pode prescindir dela como mínimo de respeito pelos direitos do outro, sem a qual não pode existir. A justiça cristã é a “virtude moral que nos leva a respeitar a pessoa do nosso irmão em Cristo, pelo menos em seus direitos, a fim de garantir o mínimo de relações necessárias para que possa existir entre eles e nós uma união de caridade” Quando a Igreja fala em caridade não significa que ignore ou despreze a justiça. Pelo contrário, a caridade reforça a justiça, supõe que as exigências da justiça devem ser cumpridas e, se necessário, transcendidas. A caridade está ao serviço da pessoa e como tal reconhece a justiça “entendida como “virtude” para a qual todos devem ser educados e como “força” moral que apoia o empenho em favorecer os direitos e os deveres de todos e cada um, na base da dignidade pessoal do ser humano” (João Paulo II, Christifideles Laici, nº 42). A promoção da justiça é uma exigência básica da caridade. Os cristãos devem estar na vanguarda da promoção da justiça sob pena de serem infiéis à verdade da caridade. Mas ninguém estranhe que a caridade deva ir mais alguém, porque ela atinge o domínio da relação gratuita, da doação sem retorno e do perdão que supera toda a justiça.  
A caridade é, na expressão de João Paulo II “a alma e sustentáculo da solidariedade”- A Igreja sempre ligou a partilha e a comunicação dos bens à celebração da Eucaristia e fomentou a solidariedade para com os mais desfavorecidos. Não só favoreceu a ação individual, criou  instituições que desenvolveram a sua ação em campos tão diversos como a proteção das crianças, idosos e deficientes, cuidado de jovens em risco, sua educação e valorização profissional, acolhimento e tratamento de doentes. O Estado moderno assumiu muitas dessas tarefas com recursos económicos, técnicos e humanos mais poderosos. No entanto, a caridade será sempre o suplemento de alma necessário para fomentar o encontro com o outro, as relações pessoais, para ajudar a reconhecer no outro o próximo, o irmão, Deus. Por respeitável que seja a crença dos que esperam o progresso ilimitado e o triunfo da igualdade e fraternidade jacobinas para suprir todas as injustiças e dispensar a caridade, continuarão sempre a desmenti-los as múltiplas formas de pobreza material e moral resultantes dos limites, fraquezas e falibilidade humana, as situações de sofrimento e solidão, a que apenas a compaixão, a misericórdia, a caridade, podem dar resposta.
A promoção dos direitos humanos e o da solidariedade internacional, através da intervenção nas estruturas e organizações sociais, é uma dimensão imprescindível da prática da caridade e campo aberto à participação dos cristãos na política. O respeito pela dignidade de cada pessoa, criatura de Deus e o serviço de Deus em cada homem constituem imperativos fundamentais e caminhos para a realização da Igreja. “Os direitos do homem são também direitos de Deus”  - lembra João Paulo II e acrescenta “A Igreja deve servir o homem se quer servir a Deus. Este é um elemento decisivo da sua fidelidade a Ele”.

por Octávio Gil Morgadinho



Ao que nós chegamos


Decididamente, o Povo tinha razão, quando no pretérito dia 15 de Setembro, saiu à rua, para protestar, veementemente, contra esta desastrosa política estatal, que nos está sufocando, isto é, apertando o garrote da austeridade, ao redor do nosso pescoço, até sermos completamente esganados.
Não há dúvida que o Povo não se enganou (o povo nunca se engana), quando premunizou o que vinha aí. Foi um movimento avassalador, uníssono, espontâneo, patriota, majestoso, sem ser acicatado por sindicatos, ideológicos políticos ou grupos de pressão. 
Ali estavam, ombro-a-ombro, absorvidos pelas mesmas convicções, impulsionados pelos mesmos sentimentos, galvanizados pela mesma emulação, indiferentes a partidos, cromatologias ideológicas, a fazerem-se ouvir, na maior, mais sincera e mais convincente manifestação pública de que há memória. Era o Povo anónimo a vibrar de indignação. Eram famílias inteiras, a fazer ouvir a sua incontida revolta, contra quem nos está a atrofiar economicamente. E o Governo, impávido e sereno, indiferente a tudo e a todos, embora vá dizendo que somos o melhor e mais activo povo do mundo, fecha os ouvidos e prossegue na sua desastrosa política de afrontamento ao Zé povinho.
Será que não há, em Portugal, quem seja capaz de corrigir os desmandos cometidos há vários anos, de outra maneira que não seja a de sugar os ordenados, pensões e reformas de quem trabalha ou então já trabalhou e adquiriu o inalienável direito à sua pensão? Não haverá ninguém que seja capaz de desatar este imbróglio? Em lugar de se sugar os vencimentos e reformas, único sustento de milhares de famílias, porque razão não se corta nas despesas, nas “gorduras” do Estado? Porque não se suprimem tantas e desnecessárias e esbanjadoras Fundações, Institutos, Empresas Municipais, lesivas Parcerias Público Privadas  subvenções e partidos políticos e sindicatos? Porque não se acaba com as escandalosas remunerações compensatórias, concedidas aos políticos que deixam de exercer a sua actividade, na política? Porque não se reduzem os deputados, na Assembleia da República para 180, como prevê o art. 151 da Constituição da República, como até já foi proposto, assisadamente e com nítido sentido de Estado, pelo líder do PS?, António José Seguro? Porque não se reduz a frota automóvel dos políticos (ministros, secretários de Estado e deputados) e porque não se faz um espaçamento maior, na renovação dos semoventes do Estado? Porque se mantêm três presidentes da República (Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio), a receberem ordenados e todas as mordomias e proventos, tal como se estivessem no activo das suas funções (automóvel, secretária, motorista, gasolina, gabinete, etc. Mas nisto não se pode tocar, não há coragem para mexer…
´É um monstro devorador, criado por políticos e para políticos. Quem gerou e vai alimentando, anos a fio, este monstro, não tem capacidade para o liquidar. Desde o PS, ao PSD, desde o CDS ao PCP, desde o Bloco esquerda aos Verdes, todos conhecem bem. Todos sabem das suas vorazes investidas, mas fingem ignorá-lo. Todos afinam pelo mesmo diapasão, todos executam as mesmas coreografias políticas, estejam eles no Poder ou na oposição, mesmo quando tudo parece ruir ao seu redor. Esta a razão porque quando, no transacto 15 de Setembro, a deputada do Bloco de Esquerda , Catarina Martins, em frente ao Palácio de Belém, misturada na multidão, protestava energicamente, contra o Governo, foi de imediato vilipendiada, assolada pelo Povo anónimo, com invectivas deste género: “esteja calada que vocês são todos iguais, são todos uns gatunos, uns mentirosos, uns canalhas”. Perante estes “mimos”, que eram gritados com raiva e fervor, Catarina Martins, bateu em retirada, esgueirou-se sorrateiramente e o mais rápido possível. Este episódio foi decerto bem significativo e emblemático, do conceito que os políticos são tidos, pelo Povo português.
Embora seja contrário a este tipo de linguagem, o certo é que não posso deixar de reconhecer uma certa veracidade, naquelas exaltadas palavras. Portugal está a afundar-se, cada dia que passa. As FAMÍLIAS estão a ficar cada vez mais depauperadas e o pior é que não se vislumbra, pelo menos por agora, quem seja capaz de tomar medidas que nos conduzam a uma profunda modificação, salvando-nos da ruína.
É um conflito de interesses que grassa por aí. De complexos ideológicos, de tráfego de influências partidárias, de guerrilha contra a esfinge criada e só destruída por Édipo. E isto porque muitos dos que agora se queixam, contra o monstro, são os mesmos que o criaram e o têm alimentado, durante largas décadas, colocando o País na miséria, na situação caótica em que ele se encontra neste momento. E agora, quem tem de pagar a crise, é o Zé Povinho, o qual nada contribuiu para este “tatu quo”.
Neste momento, o que o Povo queria é que houvesse dignidade, processos honestos, pureza de ideais, novas atitudes alternativas credíveis, indo-se buscar o dinheiro, onde ele é esbanjado e não ao bolso de quem trabalha ou recebe as suas míseras reformas, verdadeiras cobaias de laboratório, submetidas a ensaios financeiros e sociais.
Para tanto era imperioso que surgisse alguém, desprendido do Poder, revestido de equanimidade política e com sentido de Estado. Mas isso será deveras difícil, mais difícil ainda do que encontrar uma mulher virgem, num lupanar de prostituição…

Fabião Baptista


1 de Março de 2013

A surpresa de Bento XVI - Uma leitura


Surpresa!... ou talvez não.  Não fiquei surpreendido, muito menos abalado com o anúncio da renúncia de Bento XVI ao ministério de Bispo de Roma e Pastor universal da Igreja. Tinha o pressentimento que a decisão de permanência de João Paulo II na Sé de Roma até ao último extremo das suas forças não iria ser imitada pelo seu sucessor porque, apesar da proximidade no serviço da Igreja, são personalidades diferentes e em situações profundamente diversificadas só pelo facto de uma ter em conta a experiência da outra. 
João Paulo II foi aumentando o limiar da sua resistência até ao esgotamento. Fê-lo com heroísmo. Bento XVI acompanhou o testemunho de João Paulo II e com tempo, fora da pressão das circunstâncias, tomou uma decisão ponderada que para além de pessoal é um gesto profético. Não me interessam especulações sobre os motivos imediatos da sua decisão, prefiro encará-la como testemunho e anúncio de uma forma de ver e exercer a autoridade na Igreja, o “ministério petrino”, como serviço, garantia da unidade e corresponsabilidade dentro do colégio episcopal. “Assim como, por instituição do Senhor, S. Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos” (LG 22).
O Concílio Vaticano II, acentuando a perspetiva do carácter único do “ministério petrino”, articula-o com a condição de “cabeça” do colégio dos Bispos. “A Ordem dos Bispos […] é também juntamente com o Romano Pontífice, sua cabeça, e nunca sem a cabeça, sujeito do supremo e pleno poder sobre toda a Igreja, poder este que não se pode exercer senão com o consentimento do Romano Pontífice.” (LG 22). “O seu poder não é, pois, diminuído pela autoridade suprema e universal, mas antes, pelo contrário, é por ela assegurado, fortificado e defendido” (LG 27). Corolário desta doutrina foi a instituição do Sínodo dos Bispos, ainda na vigência do Concílio (15 Setembro 1965), “para manter vivo o espírito de colegialidade estabelecido pela experiência conciliar”. 
O enquadramento do ministério episcopal do Romano Pontífice no contexto da colegialidade episcopal não foi fácil de aceitar sobretudo nos meios da Cúria Romana. Durante o debate na aula conciliar foi contestado vivamente com a argumentação tradicional (era a do manual de teologia por onde estudei, em vésperas do Concílio) que a Igreja é uma monarquia e como tal exclui a participação dos Bispos no governo central da Igreja. Apenas a cúria romana o podia fazer em virtude da delegação pontifícia (Card. Ruffini e outros). A burocracia da Igreja tinha dificuldade em adaptar-se à renovação da Igreja e à sua forma própria de autoridade mesmo quando, no dizer de JoãoXXIII, no discurso de abertura do Concílio, ela (Igreja) “quer transmitir pura e íntegra a doutrina, sem atenuações nem subterfúgios”. As burocracias de todo o mundo resistem à mudança e tendem a fazer reverter as decisões que as põem em causa. 
Os papas que se seguiram ao Concílio concretizaram em pequenos gestos simbólicos o distanciamento da autoridade da Igreja como serviço da verdade, da comunhão e da unidade, das formas mundanas de exercício do poder. Pouco a pouco, desapareceu a “sedia gestatória”, espécie de andor em que o Papa se fazia transportar nas grandes cerimónias. Paulo VI pontuou os intervalos conciliares com a Peregrinação à Terra Santa (volta às origens e encontro ecuménico com o Oriente), à India (encontro com os pobres), Visita à ONU (na comemoração dos 20 anos da instituição). As visitas pastorais pelo mundo inteiro tornaram-se uma rotina no ministério de João Paulo II e Bento XVI. Na véspera da viagem à India, Paulo VI, A 13 de Novembro 1964, depôs a tiara oferecida pela sua diocese de Milão e doou-a para ser leiloada a favor dos pobres. 
A tiara era símbolo da pretensão a um poder temporal e a um certo império do mundo. Não mais foi usada por qualquer papa e desapareceu do ritual a cerimónia da coroação. Permaneceu ainda na heráldica, até que Bento XVI a substituiu no seu brasão pela mitra acompanhada do pallium de metropolita. O papa renunciava definitivamente ao vestígio simbólico do poder temporal para o substituir pela insígnia do poder espiritual episcopal de ensinar, santificar e reger, da corresponsabilidade e do serviço da verdade e da unidade na Igreja. Eduardo Lourenço (O peso da tiara abolida, Público, 15/02/2013) viu argutamente  o significado deste gesto profético na decisão do Papa Ratzinger.
Restava ao supremo detentor do poder espiritual, ao “servo dos servos de Deus” assumir a fragilidade e fraqueza do homem que o exerce, os limites a que está sujeita a sua capacidade para cumprir digna e eficazmente as tarefas que lhe são cometidas. Os progressos da medicina tornaram possível o prolongamento da vida humana, sem garantia da preservação das faculdades físicas, frescura mental e capacidade de decidir. A legislação canónica resolveu facilmente o problema para os bispos, impondo um limite (75) anos, para o exercício das funções correspondentes ao ministério. Evitou-se o incómodo da decisão caso a caso geradora de equívocos, imitando normas adotadas, no foro civil. Regularam-se as competências dos membros do colégio cardinalício, de acordo com idade. 
Faltava o Papa. Apenas ele podia tomar a decisão. E tomou-a: “No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para  administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro…” (Declaração de renúncia de Bento XVI)
Encaro esta decisão como ato profético com a profundidade do símbolo carregado de significado que aponta para inúmeras leituras convergentes com uma forma mais evangélica de interpretar a autoridade e o governo na Igreja como serviço, como corresponsabilidade no testemunho dos valores do evangelho, na unidade da pluralidade das suas expressões. 
Vejo no futuro o exercício do “ministério petrino” de uma forma mais colegial. Em abono desta posição cito o ainda simples teólogo J. Ratzinger, professor da Universidade de Munster, consultor do Card. Frings de Colónia. perito do Concílio: “Há sinais de que a doutrina da colegialidade dos Bispos imporá várias e importantes modificações nas formas de apresentação do primado; não suprime a doutrina em si, mas faz com que se apresente com todo o seu significado central e teológico. […] O primado do Papa, segundo isso, não pode entender-se como monarquia absoluta, como se o Bispo de Roma fosse o monarca ilimitado dum estado centralista e sobrenaturalmente concebido, chamado “Igreja”. Significa antes que dentro da rede das Igrejas que estão em comunhão entre si e sobre as quais assenta a única Igreja de Deus, existe um ponto fixo de união, a sedes romana, para a qual tem de se orientar a unidade da fé e da “comunhão” (“As implicações pastorais da colegialidade dos Bispos”, Concilium, ed.portuguesa, nº 1, (Janeiro 1965), pp.27-49).
O sentido pleno da decisão de Bento XVI, as suas consequências práticas só o tempo o desvendará na multiplicidade das leituras e decisões que a Igreja, toda a Igreja, “desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis” (LG 12), irá tomar, a partir de agora, “para ser livre na sua nova vocação” (cito ainda Ratzinger. Ib.).

Octávio Gil Morgadinho

22 de Novembro de 2012

Alerta

Caras famílias, mais uma vez venho sensibilizar para a importância da prevenção de acidentes e segurança infantil nas crianças e jovens. Quando falo de acidentes refiro os acidentes rodoviários, as quedas, os afogamentos, as intoxicações, as queimaduras, o esmagamento, o corte e a asfixia. São situações que provocam lesões nas crianças, por vezes irreversíveis. De acordo com um estudo da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI) de 2007-2009, em média 14 crianças são vítimas de um acidente rodoviário todos os dias em Portugal. Mais de metade das crianças são passageiros. Conforme indica a APSI tem vindo a melhorar a forma como se transporta uma criança como passageira, contudo ainda segundo um estudo de 2010 desta associação: das 80% de crianças que utilizava cadeira de transporte no automóvel, só 40% das crianças viajava convenientemente em segurança. As quedas são o acidente mais frequente nas crianças e jovens e a causa mais frequente de ida à urgência. Segundo a APSI e de acordo com dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) de 2002-2009, 31% das mortes com crianças até aos 9 anos resultaram de quedas. Em relação às intoxicações o Centro de Informação Antivenenos (CIAV) recebe em média 30 chamadas por dia relativas a intoxicação de crianças até aos 15 anos. Para prevenir intoxicações tenha sempre os produtos de limpeza, produtos de higiene pessoal, pesticidas, fertilizantes, raticidas, bolas de naftalina e medicamentos, fora do alcance da criança, num lugar alto, fechado à chave e nunca ao pé dos alimentos. Não deve retirar os produtos das embalagens originais, não os mude para garrafas de bebidas. Prefira embalagens com tampa de segurança. Não se distraia e não tenha medicamentos na carteira, na mesa de cabeceira, ou em bancadas. Não dê medicamentos às escuras às crianças. As crianças mais pequenas relacionam os medicamentos com doces como as gomas e rebuçados. Não deve tomar medicamentos na presença da criança. Como a criança não vê o perigo, ela tenta fazer o mesmo. Não deixe a criança comer sementes, bagas ou frutos de plantas desconhecidas. Se ocorrer uma intoxicação ligue imediatamente para o CIAV (808250143) e siga as orientações. Para mais informações, procure o enfermeiro ou o seu médico de família no seu Centro de Saúde, ou a Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI): Tel.218844100; apsi@apsi.org.pt. Consulte também a Legislação, Normas e Orientações Técnicas sobre Transporte de Crianças em Automóvel: Artigo 55 do Código da Estrada - Decreto-Lei nº44/2005 de 23 de Fevereiro; Orientação Técnica nº001/2010de 16.9.2010 da Direção Geral da Saúde. Piscinas: Projeto de Norma Portuguesa pr NP 4500. Poços – Decreto-Lei nº 310/2002 de 18 de Dezembro - Capítulo XI – artigos 42 e 44. Guardas para varandas – Norma Portuguesa NP 4491: 2009. Segurança de brinquedos: Decreto-Lei nº43/2011 de 24  Março.

por Maria Helena


20 de Novembro de 2012

Velhos são os trapos


Há poucos dias, ao passar junto de um idoso, fiquei comovido pelo modo como ele estava a ser acariciado, mimado e rodeado de extremoso carinho, pelos seus familiares, os quais regularmente o visitam.
De facto, na Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, verificamos amiudadamente, que há um grande número de idosos, que são amados, afagados e visitados com carinhoso amor, pelos seus entes queridos, que os adoram e amam acrisoladamente.
Como eles se sentem felizes, contentes e ainda válidos e úteis, para realizarem pequenas tarefas domésticas e de bricolage. A presença dos familiares, junto dos seus idosos, constitui um acto congregador e enriquecedor, exemplo vivo para os mais jovens e espelho fiel para as gerações mais novas. Reparem bem, como os idosos sabem apreciar, saborear e agradecer as visitas dos seus idolatrados familiares.
Podem crer que, no património duma FAMÍLIA, bem formadas, os mais idosos representam sempre, uma faceta deveras importante e valiosa do agregado familiar, especialmente, para as famílias onde ainda não se diluíram os autênticos valores da vida humana.
Madre Teresa de Calcutá, referia que, “a maior miséria humana, que grassava pelo mundo, residia, muitas vezes, no abandono, no desprezo e no desamparo a que eram votados os idosos”.
Também Simone de Beauvoir, a famosa feminista, que durante anos foi a fiel companheira do grande filósofo existencialista, Jean-Paul Sartre, asseverava, veementemente, que “uma sociedade que não ama, que não respeita e que não protege os mais idosos, é uma sociedade cruel, desumana, sem alma, sem coração e sem futuro”.
Embora a filosofia de vida de Simone de Beauvoir, se situe num hemisfério, diametralmente oposto ao meu, nomeadamente no campo da fé, neste seu pensamento estamos em perfeita sintonia, afinando pelo mesmo diapasão conceitual, pois perfilhamos da mesma opinião e dos mesmos princípios.
Com efeito, nada do que temos e do que somos, apareceu por geração espontânea. Do que desfrutamos hoje e perdura, foi-nos legado, já vem de longe, é fruto de muito trabalho dos nossos ascendentes, da dedicação dos nossos avós, do amor dos nossos pais, que tudo foram conseguindo á custa de muitos sacrifícios, de muitas privações, de muitas lutas.
Chegados a esta idade, saibamos saborear alegria de viver, embora com as limitações inerentes aos anos que não perdoam. Saibamos ser gratos e reconhecidos por ainda podermos ser úteis e prestáveis a quem precisa da nossa modesta colaboração. Mas, para tanto, é imprescindível sentirmo-nos rodeados por um clima de fraternidade, por um ambiente galvanizador, envolto numa atmosfera de apreço, gratidão e estima.
Na última etapa da vida terrena, já quase tudo se dispensa. Porém, sentirmo-nos acarinhados, amados e estimados, podem crer que é o maior e mais valioso presente que se pode oferecer a um idoso.
É uma verdadeira desolação, o que por vezes observamos por aí. Familiares e às vezes muito chegados, olvidam os seus progenitores, votando-os ao abandono, nos “lares da Terceira Idade”, como se fossem trastes velhos, já sem préstimo algum, como se fossem um pesado fardo de incomodativa presença. Vêm visitá-los, de longe em longe, com desculpas esfarrapadas e inconsistentes, que não convencem ninguém. Outros procuram os seus velhinhos, apenas com o firme propósito de, deploravelmente, lhe extorquirem, os poucos “cobres” que lhes restam, da mensalidade que tiveram que pagar à Santa Casa, pela sua estadia…
Muitos familiares parecem querer guardar para depois da morte dos seus ascendentes, os afectos, as exteriorizações de apreço, os sentimentos de gratidão e o carinho, os quais só têm lugar e sentido prático enquanto o idoso é vivo, enquanto os possa apreciar, saborear, agradecer a eterna afeição que acrisoladamente lhe dedicam.
É certo que a Assistência Social, tem-se desdobrado em plurifacetadas iniciativas, de apoio aos idosos mais carenciados, de acordo com o que se encontra preceituado nos Artigos 63º; 67º; 72º da Lei Fundamental do País. E isto porque a comunidade tem sempre uma grande “dívida” para com os idosos da Nação, não podendo, a dedicação que eles tiveram e o esforço que desenvolveram, em prol da comunidade, ser saldado de outra forma que não seja pelo amoroso afecto e carinho para com os seus ancião.
Os idosos, enquanto vivos, são autênticos relicários de experiência feita, perfeitos cadinhos e ciência viva, riqueza esta que não devia ser menosprezada, aviltada, pois pode ser útil e prestável para os vindouros.
Quão felizes são os povos, as famílias e as sociedades, que respeitam os velhinhos, que os amparam e tratam com simpatia, desvelo carinho e consideração, incentivando-os a serem úteis, rentáveis e frutuosos, para a comunidade em geral, onde se encontram integrados, de acordo com as suas aptidões, capacidades cognitivas, físicas e intelectuais.

“DIA INTERNACIONAL DO IDOSO” – 1-X-2012
Olhem, lá vai o velhinho

Caminha o bom velhinho
Apoiado ao seu cajado
Direitinho ao seu cantinho
A pensar no seu passado

Trabalhou a vida inteira
Para sustentar o lar
Sem pensar de que maneira
Ele havia de acabar…

Velhice sacrificada
Que tão desprezada és
E por vezes amesquinhada
Da cabeça até aos pés.

Teus, filhos, neste mundo
Sempre em ti estão pensando
Deus te dê um Sacramento
Te abençoe, afagando

Jesus que tudo prevê
Jamais despreza os velhinhos
Neste momento, que Ele te dê
Consolações e carinhos

Jesus que tudo pode
Olha sempre p’los velhinhos
E por isso lhes acode
E protege com miminhos

Alegra-te oh! Mocidade
Vive esta vida bendita
Bem sei que nesta idade
Raramente se medita

Olhem, lá vai o velhinho
Encostado ao seu bordão
Caminha devagarinho
C’os olhos postos no chão

por Fabião Baptista


18 de Novembro de 2012

Crer na Fé



Ainda bem que vamos iniciar dentro em breve um Ano da Fé. Há muito que precisávamos dele! E não estou a referir-me só aos de fora; sobretudo os de dentro – os que consagram, os que juram votos de pobreza, castidade e obediência, os leigos que servem a Igreja em diferentes ministérios e estruturas, ou os que regularmente participam na missa e até comungam – necessitam urgentemente de rever a sua relação afetiva com Deus. Reside aqui o busílis da questão. 
Precisamos de nos encher de fé para depois evangelizarmos com novo vigor e entusiasmo a sociedade dos homens e das mulheres, dos políticos e governantes, dos mercados financeiros e das bolsas, das sociedades secretas e anónimas, dos poderosos e donos do mundo.
Deixemo-nos de histórias – rituais, rotinas, discursos, pregações, reflexões e reuniões sem sentido –  e questionemos o essencial. Será que eu amo este Deus, amo este Cristo? Será que eu me sinto apaixonado, encantado, fascinado por Ele? Será que anseio o Seu colo e me deixo embalar pela Sua vontade? Será que eu me identifico com Ele? Será que eu acredito que Ele conta comigo para salvar a humanidade, isto é, para tornar mais felizes as pessoas que me rodeiam? Será que eu me reconheço fraco e pobre perante a Sua grandeza, levando-me a ser humilde, pobre, generoso? Será que eu acredito que Ele faz milagres na minha vida e nos outros através de mim? Será que tenho momentos de forte emoção quando rezo, quando interiorizo uma homilia, ou quando O vejo na hóstia consagrada, na cruz, numa gravura, numa pessoa doente, num desempregado, num mendigo, numa criança? Será que eu me sinto «sacramento»?
Disse há tempos D. António Couto – uma voz autorizada da nossa Igreja – a este respeito: «Mas se Cristo não fizer parte da minha vida, então não farei grande evangelização. Eu posso falar muito de Cristo, posso encher a boca de Cristo, mas se Ele não transborda da minha vida, se é apenas palavra, isso não tem qualquer influência, porque as pessoas veem isso. Hoje precisamos de cristãos convictos, não envergonhados, a começar pelos bispos e pelos padres, mas também pelos leigos» (Família Cristã, abril 2012, p. 62).
Se assim for (pelo menos se assim for mais ou menos…), tudo o resto tem (mais) sentido: a missa, mesmo quando o sacerdote, o coro e o ambiente não ajudam; a confissão, mesmo quando acho que não tenho grandes pecados e me posso confessar diretamente a Deus; as orações tradicionais, mesmo quando as recito mecanicamente; as ladainhas, mesmo quando não as entendo cabalmente; as leituras bíblicas (ou os textos do Magistério da Igreja), mesmo quando a linguagem não é a mais acessível; as procissões (e outros rituais), mesmo quando elas parecem deslocadas dos tempos modernos; o jejum e a abstinência (e outros preceitos) mesmo quando já poucos as cumprem; as doenças, os contratempos, o sofrimento mesmo quando acho que não os mereço; a morte de um ente querido, mesmo quando choro amargamente.
Se eu acreditar nesta fé em Jesus Cristo, eu transformo as dificuldades em preciosas oportunidades de mais me aproximar d’Ele, porque me sinto frágil, dependente, «pobre», ávido do seu conforto.
Se eu acreditar na fé, eu creio na «força mais potente do mundo» (Madre Teresa de Calcutá) e, sendo fraco, sentir-me-ei forte, sendo medroso, sentir-me-ei destemido. 
Se eu tiver fé, se eu cultivar e alimentar este amor sublime, este «enamoramento», então eu converto a minha vida, e sou acolhedor, e simpático, e humilde, e solidário, e conciliador. E tenho esperança, isto é, sou otimista, mesmo quando as dificuldades me invadem!
Temos que nos entusiasmar. Tenho que me «enTEOSiasmar», isto é “trazer Deus dentro de mim”. E quando O transporto dentro de mim, Ele transforma-me, Ele transfigura-me, Ele eclode em mim e projeta-se nos outros. E converte-nos. E humaniza esta sociedade em crise profunda, divinizando-a. Tudo isto parece “poesia”… mas quem não tiver esta convicção, pouco convencerá…
Anda por aí um cartaz publicitário de uma conhecida marca de automóveis que diz somente isto: «Conheça-o na intimidade». Que lindo mote para este Ano da Fé que se aproxima! Que extraordinário lema para conduzirmos, em segurança, os anos (de Fé) do resto das nossas vidas!

por Jorge Cotovio


16 de Novembro de 2012

Cinquenta Anos


Cinquenta anos é um período de tempo relativamente curto, se considerarmos a idade do universo ou o tempo da história. È um percurso longo para a duração da vida individual. Coube-me em sorte viver os cinquenta anos centrais da minha vida num contexto que abarca transformações marcantes para a história social, política, cultural e religiosa do mundo, da Igreja e do nosso país. A comemoração, este mês, do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II suscitou-me a reflexão sobre eles. 
Quando se iniciaram os trabalhos do Concílio, a 11 de Outubro de 1962, estava no auge a guerra fria. Um ano antes, fora construído o muro de Berlim para separar física e simbolicamente a zona sob domínio soviético da restante Europa. Nesses mesmos dias, a 14 de Outubro, os Estados Unidos divulgavam provas da presença de mísseis soviéticos em Cuba e exigiam a sua retirada imediata. Durante 13 dias o mundo ficou suspenso da iminência duma guerra nuclear, apenas afastada, a 28 de Outubro com o acordo para a sua remoção. 
Na China, Mao Tse Tung rompera com a Únião Soviética, quebrara a unidade do mundo comunista e iniciara o Grande Salto em Frente e precipitara o país numa vaga de fome. A revolução cultural intensificou a repressão interna e exportou a contestação radical para o Ocidente. Viria a seguir o refluxo que conduziu ao socialismo de mercado, à industrialização e à transformação da China na potência económica atual.
Tanto John Kennedy e os governantes da época como os Padres conciliares que incluíam 59 bispos polacos e lamentavam a ausência de muitos outros impedidos pelos governos comunistas estavam longe de pensar que o regime soviético e a sua cortina de ferro não duraria mais trinta anos. O muro de Berlim caiu em 1989, a Alemanha foi reunificada em 1990 e a União Soviética dissolvida em 1991.
Nesse começo do Concílio, ninguém sonharia que o jovem bispo Karol Wojtyla, de 42 anos, ali presente, seria, um dia, eleito Papa e protagonista destas transformações “impossíveis” na Europa. Sem qualquer divisão do exército, a ação corajosa de João Paulo II e da Igreja polaca foi decisiva para desfazer a repartição da Europa e a hegemonia dos partidos comunistas que, com a anuência das potências ocidentais, Estaline tinha conseguido em Yalta, em 1945.
No quadro da guerra fria, das políticas concorrentes da União Soviética e dos Estados Unidos e da interposição da China para repartirem as zonas de influência, começou, em 1961, a resistência armada nas colónias portuguesas de Angola, Guiné e Moçambique. Os seus líderes foram recrutados e armados por essas potências com o apoio dos países africanos. Agostinho Neto de Angola como Amílcar Cabral da Guiné fizeram os estudos em Lisboa e foram encaminhados pelo PCP para a órbita da União Soviética que apoiou o MPLA até na guerra civil após a independência com o recurso às tropas cubanas. Holden Roberto e Jonas Savimbi educados em missões protestantes receberam o suporte dos Estados Unidos. Savimbi receberia ajuda da China, também na guerra civil contra o MPLA na lógica da rivalidade entre Pequim e Moscovo.
Os anos sessenta e setenta foram marcados na Igreja portuguesa pelo Concílio e pós-Concílio e pelo contexto social e político do avolumar da resistência política ao regime de Salazar reforçada pela guerra colonial. O Concílio suscitou entusiasmo numa camada mais jovem de padres atentos aos recentes desenvolvimentos teológicos e leigos mais envolvidos na ação da Igreja. Em contrapartida, foi recebido com desconfiança por sectores de formação mais ritualista e tradicionalista, que confundiam mudança com cedência e subversão. A clivagem interferia com a esfera política e ideológica e extrapolava duma para a outra, evoluindo da aplicação simplista das catagorias esquerda/direita para a de progressista/reacionário até ao extremo comunista/fascista.
D. António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto que, na carta de 13 de Julho de 1958, criticara a política do regime de Salazar e por isso fora exilado era a referência dos mais comprometidos no plano social nomeadamente os movimentos de ação católica operária e estudantil. Estes movimentos estimulavam os militantes católicos a refletirem, através do método, “ver, julgar e agir”, o quotidiano da vida e do trabalho à luz do evangelho e da doutrina social da Igreja para os motivar para a intervenção social e política no seu meio. Pelo sua própria natureza de movimentos de apostolado estavam abertos à participação de todos. Não admira que, com o agudizar da contestação política e da repressão, fossem aproveitados por uns como espaços de liberdade, por outros diretamente como oportunidades de penetração ideológica. Em meados de 74, depois do 25 de Abril, acompanhava eu uma equipa da JOC da cidade de Lisboa. Propôs-se aí a supressão do C (Cristão) de JOC para apenas JO (Operária). Não cheguei a saber qual o grau de adesão à Igreja dos presentes. De um outro padre que estava presente vim a saber que era militante comunista. 
Estes movimentos de Igreja prepararam militantes e habilitaram-nos com conhecimentos e técnicas para a participação nas estruturas sociais e políticas. Rara terá sido a organização política ou sindical da esquerda à direita que não aproveitou os militantes formados nos movimentos da Igreja. 
As expectativas e a reação perante as decisões do concílio provocaram clivagens no clero e nas estruturas eclesiásticas.. O concílio não foi apenas uma repintura da fachada de Igreja, mas transformação significativa das suas estruturas. O choque de expectativas provocou conflitos entre padres, entre padres e bispos e a formação de blocos que radicalizaram acusações de infidelidade e desvios de ortodoxia. Houve manifestos, polémicas, apelos à opinião pública. O mais conhecido foi o do Padre Felicidade. A ausência de hábitos de diálogo, o extremar das posições, impediu a discussão serena dos problemas, provocou decisões autoritárias e reações radicais. Assim se intensificou o abandono de alguns padres que encontraram como resposta às suas dúvidas pessoais ou decisões pessoais refletidas, a incompreensão e a recusa. Casos houve em que a nomeação para a assistência religiosa das tropas ou dos emigrantes ou a nomeação para cargos fora da diocese foram ocasião para afastar padres considerados incómodos e agravar a instabilidade da sua situação pessoal. Casos houve em que os seminários implodiram por conflitos internos e impossibilidade de consenso mínimo para uma pedagogia eficaz. 
O Concílio recordou-nos que a Igreja deve estar no mundo como fermento de transformação. A sua presença não se confunde com o imobilismo. Exige renovada atenção aos sinais dos tempos e a coragem para responder aos seus desafios.
As transformações do nosso tempo confirmaram que a figura deste mundo e os seus poderes são passageiros. As palavras de João Paulo II, no começo do seu pontificado, “Não tenhais medo” são o testemunho dum homem que com a coragem da fé e a coerência da sua ação contribuiu para que o mundo de hoje e a Igreja de hoje sejam muito diferentes do que eram há cinquenta anos.

por Octávio Gil Morgadinho


14 de Novembro de 2012

Ano de “Fé” em tempo de crise (Editorial)

A Igreja Católica prepara-se para viver um Ano dedicado à Fé, que terá a sua abertura a 11 de Outubro de 2012 e terminará a 14 de Novembro de 2013, com a celebração da..

O objectivo é proporcionar aos cristãos uma oportunidade para aprofundar e fortalecer a “Fé”, a fim de que esta informe a sua vida, a sua acção e comprometa no anúncio de Jesus Cristo.
A Igreja está no mundo e para ser fiel ao seu Senhor/Fundador e à sua missão, como refere o Concílio Vaticano II, é chamada a percorrer o caminho dos homens para lhes revelar e comunicar a mensagem de que é portadora: “Deus quer ser salvação para cada pessoa”. Percorrendo este caminho, a Igreja é solidária com os homens de cada tempo, procurando comungar das suas alegrias, inquietações, esperanças e tristezas. No nosso contexto português, a Igreja tem marcado presença ao lado daqueles que sentem maiores privações e que são as vítimas mais directas da (dês)governação de alguns.
Este Ano de “fé” cruza-se com uma crise, não só europeia, quanto mundial. Esta crise, torna-se uma oportunidade para a Igreja denunciar as ideologias que se opõem a uma existência sem Deus, desprovida de valores humanos e éticos e por isso desrespeitadora da vida, da pessoa humana e seu habitat natural, o universo e anunciar os valores do Evangelho, que são também humanos e, se vividos, são geradores de uma sociedade mais justa, mais irmã, mais fraterna e dum planeta mais habitável. É também um desafio à conversão.
Praticamente no fecho desta publicação, depois de um dia turbulento, na Assembleia da República, mas também nas ruas, um comunicado do conselho de estado, após sete horas de reunião, anunciava a intenção do Governo de recuar na aplicação da TSU.
Ainda bem que assim aconteceu, embora para garantir as metas da Troika, será necessário cortar noutros âmbitos, mas de forma equitativa, salvaguardando sobretudo, as famílias com baixos rendimentos económicos.
Na verdade, “quando não se quer ver, vê-se o que não se quer”. E assim aconteceu. Quantas vozes se levantaram nos últimos anos a dizer que “o paraíso” em que se vivia, não podia durar muito… e agora todos sabem dizer que é incomportável, pois é…
Desviaram-se fundos, multiplicaram-se empresas, fundações, com finalidades ambíguas, tantas vezes a complicar a vida a quem tentava fazer uma honesta gestão dos recursos que possuía, enfim... sonhamos alto e caímos fundo.
E a avançar assim, o país torna-se ingovernável, qualquer que seja a cor política dos governantes. Há diferenças escandalosas que, numa sociedade democrática são inadmissíveis. E isso percebe-se quando se confronta o nível de vida e de ordenados de uma certa elite portuguesa, com outros países. No mínimo é uma vergonha.
As diferenças são admissíveis, mas dentro de um patamar possível e não tão escandaloso, como acontece. Cada vez são menos os que têm mais e mais os que têm menos. Mas não contribuem todos para o bem comum? Faça-se então uma redistribuição mais equitativa, na razoabilidade das diferenças.
Chegamos tão longe, que agora a ameaça da privação declara guerra aberta a quem ousar beliscar qualquer destas mordomias, tenha ele a cor política que tiver. Aliás a revisão da Constituição contempla a eliminação de uns tantos privilégios e será outra ameaça a dar luta a quem neles ousar mexer. 
A esmagadora maioria dos portugueses, de uma forma ou de outra, contribuiu para esta situação, mas agora poucos se permitem reconhecer que tem que haver um conjunto. 
Manifestar indignação e insatisfação, sim, mas há greves e sobretudo no momento actual, que só agravam a situação. Há greves e greves… Mas também as próprias greves muitas vezes são injustas. Uns pensam apenas em si, quando exigem aumento de ordenados e outras regalias, esquecendo-se que há muita gente com ordenados bem mais baixos e têm necessidades idênticas a satisfazer. Outros há, que durante anos tiveram uma conduta sóbria e contida, privaram-se de muita coisa, para poderem obter outras, ou mais tarde, poderem contar com uma reforma digna para a sua velhice; outros há que sempre viveram com o mínimo necessário. Só que agora pagam todos pela mesma moeda. Não há aqui injustiça e desigualdade?. Claro que há… e se os injustiçados, neste domínio se levantassem, entraríamos, sem dúvida, numa profunda guerra civil, mas talvez os mais sacrificados, estejam calados. 
O ideal será cada um ser mais honesto, consigo e com os outros. E, embora, reagindo quando as medidas pareçam beliscar demasiado as possibilidades reais da grande maioria, se cada um assumir a sua parte, dentro das possibilidades que tem, será bem mais fácil. Puxando cada um para seu lado, dificilmente se irá conseguir saldar a dívida. E será insensato passar esta ‘herança’ para as gerações vindouras. Neste sentido, a vivência de um Ano dedicado à Fé, constitui para os cristãos um desafio a viver mais conforme o Evangelho e a não pactuar nestes critérios geradores de desigualdades e desonestidade, que apenas têm em vista o seu próprio bem-estar. 

por Vieira Maria


Reflexões no contexto da celebração do Ano da Fé


1. Introdução

"A PORTA DA Fé (cf At 14, 27), que introduz na vida da comunhão com Deus e permite a entrada na Sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira."

É com estas palavras que o Papa Bento XVI  inicia  a Carta Apostólica com que proclama um Ano da Fé a  celebrar de 11 de Outubro de 2012 a 24 de Novembro de 2013.
De um modo muito significativo e claro é-nos dito que essa porta esta sempre aberta para nós e que é possível passar por ela quando deixamos que o nosso coração se  transforme pela Palavra de Deus. A passagem não é, pois, automática, nem acontece por um mero acaso. Para passar esse umbral é necessário que cada um queira e ouse fazê-lo. É necessário a escuta e o encontro com Deus e com a sua palavra. Depois as coisas vão acontecendo, nem sempre livres de dificuldades, é verdade, mas sempre abrindo-nos novos horizontes de vida e novas possibilidades de realização. De facto, aqueles que temos a ousadia de responder no dia a dia a este convite, sabemos bem como a vida pode adquirir um outro 'sabor' e 'tonalidade' em todas as sua circunstâncias.
E todos nós, que fazemos parte desta família unida por este Jornal, também sabemos como a experiência familiar é não só fundamental, como indispensável, para ter acesso a este caminho que se abre após termos passado a porta. Daí o título que propomos para este conjunto de artigos.
A imagem da porta é mesmo muito sugestiva ajudando-nos a perceber um pouco melhor o que é a experiência da fé.  Antes de passar o seu umbral eu posso ter alguma ideia daquilo que está para além dela, mas sempre pelo que ouvi dizer e descrever e nunca por experiência própria. Só depois de eu próprio ousar a passagem é que posso ter acesso, por mim próprio, a toda a realidade que esse passar me possibilita. Ninguém pode passar essa porta por mim, mas podem ajudar-me, levar-me pela mão, ou mesmo ao colo se tenho muita dificuldade em caminhar. Digo ajudar e nunca obrigar, pois se me obrigam na primeira oportunidade voltarei para trás. 
E depois de a passar podemos descobrir que o caminho a que ela dá acesso também tem de ser feito por cada um, mas nunca em solitário e de um modo  isolado. Bastará, para isso, olhar para o lado, para a frente e para trás para vermos como esse caminho é percorrido por tantos outros, que constantemente se ajudam nesse caminhar.
É precisamente neste exercício de caminho em conjunto e de ajuda que queremos lançar um desafio aos nossos leitores. Na verdade, quando pensávamos que novo tema abordar neste espaço do nosso Jornal, foi ficando claro que deveríamos ter como pano de fundo esta proposta de celebração do ano da fé.  Mas como fazê-lo de modo a não repetir simplesmente o que já foi dito noutras ocasiões (lembro que no ano de 2008 foram publicados uma série de artigos sobre a temática «Falar Deus, Viver Deus - A transmissão da fé no contexto da família») e a deixar bem claro que a experiência da fé tem mesmo de ser uma experiência de vida, que toque a vida concreta das pessoas, que parta dessa vida e que seja capaz de gerar mais vida?
A interrogação foi-nos sugerindo uma resposta. Vamos escutar os nossos leitores, vamos ouvir o que eles têm para nos dizer. Vamos desafiá-los a que partilhem connosco as suas dúvidas, as suas certezas, as suas conquistas e dificuldades, neste exercício de percorrer em conjunto, como família, o percurso a que a porta da fé dá acesso.
Apesar de poder parecer arriscado aqui vai pois o pedido: partilhem connosco (através do meu mail juanambrosio@netcabo.pt, ou dos contactos do Jornal) o que são as vossa experiências, coloquem perguntas, façam sugestões... Eu depois tentarei dar-lhes uma forma (mantendo-me fiel aos vossos conteúdos) que nos pareça ser útil para todos os que partilhamos este espaço.
Vamos ajudar-nos a fazer este caminho a que a Porta da Fé nos deu acesso e ousemos viver, partilhar e testemunhar a fé à altura dos tempos que estamos a viver. 

por Juan Ambrósio


14 de Outubro de 2012

Casados e Felizes


14. O  amor dos esposos berço de humanidade

Como todos sabemos vai decorrer de 30 de Maio a 3 de Junho de 2012, em Milão o VII Encontro Mundial de Famílias. Trata-se, sem dúvida, de um momento muito importante na vida da Igreja, das famílias e da própria humanidade.
 Na vida da Igreja, porque, e não tenhamos dúvidas a esse nível, o seu futuro passa também pelo que for o futuro da família. Com isto não estou a dizer que a Igreja pode correr o risco de acabar, o que afirmo é que a realização da sua missão está também muito ligada à realidade das famílias, e com isto não me estou só a referir ao indispensável e fundamental papel que estas desempenham ao nível da transmissão da fé, mas vou mais longe, apontando naquela dire-ção que me ajuda a entender a comunidade eclesial como família de famílias que no meio da história humana presencializa o Mistério de Deus e concretiza o seu projeto para a humanidade.
Na vida das famílias e da hu-manidade porque é sempre importante encontrar momentos onde esta realidade possa ser refletida e celebrada, de modo a ser vivida ainda com mais intensidade.  Como diz a primeira catequese de preparação para este encontro: “ A aventura da vida humana começa a partir daquilo que recebemos: a vida, a casa, o afeto, a língua e a fé. A nossa humanidade é forjada por uma família, com as suas riquezas e as suas pobrezas”. Basta esta pequena citação para percebermos a importância fundamental da família para a vida humana. 
Sem família não teremos vida humana em plenitude. Esta afirmação pode parecer banal e óbvia e, no entanto, encerra em si algo que vai muito para além do que é óbvio e banal. É que a vida humana não pode ser apenas vida, ou dito de outro modo, o viver para ser verdadeiramente um viver humano, não pode apenas ser um viver sentido, mas tem de ser um viver com sentido. Deste modo, para que haja vida humana também não basta criar as condições necessárias para que se possa gerar a vida, mas é necessário ir mais longe, procurando criar e desenvolver todas as condições para que essa vida possa ser verdadeira e plenamente humana.
Este é um dos âmbitos em que podemos ver e perceber de uma maneira,  infelizmente nem sempre evidente, a importância fundamental da família para a vida humana. Em bom  rigor, a vida, e refiro-me agora simplesmente à sua dimensão biológica, pode ser gerada fora do ambiente familiar. O mesmo não pode, no entanto, ser dito da vida humana. A este nível temos de falar noutras dinâmicas que necessitam de muito mais do que nove meses de gestação para se poderem desenvolver e consolidar. E mesmo durante este nove meses o ambiente que rodeia a mãe e o modo como ela vive, acaba por influenciar e ‘marcar’ o desenvolvimento da vida desse ser, de maneiras que já somos capazes de ir  percebendo, ainda que não na totalidade da sua extensão.
Em certo sentido, podemos pois afirmar que o útero onde é gerado a vida humana, não é simplesmente o útero materno, mas sim o ‘útero’ familiar. Claro que sem o primeiro nem sequer a vida seria possível, mas sem o segundo é a própria qualidade do humano que fica afectada. 
A partir deste olhar somos capazes de perceber ainda um pouco melhor a importância vital da comunhão conjugal. 
A família não se reduz, como bem sabemos, ao casal. No entanto, este núcleo, baseado numa eleição de amor, é fundamental para todo o desenvolvimento familiar. Aqui, porque ambos se escolhem um ao outro, porque ambos se comprometem um com o outro a construir uma vida que já não é simplesmente a de um, mais a do outro, mas sim a de ambos e que é definitivamente uma nova realidade, aqui, dizíamos, reside a base fecunda para a gestação da vida humana.
É por isso, que a vida do casal deve ser sempre acarinhada e alimentada. E mesmo quando os filhos nascem é importante não esquecer essa dimensão, pois ela continua a ser geradora de humanidade. Tal como no princípio, a vida do casal não se deve esgotar só no relacionamento dos dois, também depois ela não se pode concentrar só na relação com os filhos. O processo de gestação do ser humano implica e exige esta totalidade. 
Por isso é tão importante a experiência familiar baseada no testemunho e na vivência de um casamento que é feliz, não só por causa dos filhos, mas também por causa do amor conjugal.

Por Juan Ambrósio


7 de Outubro de 2012

Casados e Felizes


13.  Os outros

A experiência do matrimónio é, como vimos da ultima vez, uma experiência de descentramento, ou seja o centro não é cada um por si, mas o outro que é amado e a partir do
qual cada um é.
Esta experiência não se esgota, contudo, a este nível, mas continua, abrindo-se a outros e integrando outros, ainda que vivida de maneira distinta e com contornos diferentes. De facto, a realidade do casamento parte da vida do casal, mas não se esgota de maneira nenhuma aí. Viver esta realidade só a esse nível seria fazer do casamento uma experiência de um egoísmo a dois e mesmo de uma solidão a dois.
O descentramento não termina pois na relação entre os membros do casal, mas abre-se a outras dimensões, sendo a primeira deles a relação com os filhos. É logo neste nível que podemos perceber como a dinâmica do amor conjugal é constitutivamente uma dinâmica de abertura e de dom. Pelo amor, marido e mulher são lançados um para o outro, sustentando-se mutuamente e fazendo-se ser. Desta intimidade e comunhão brota vida nova que acaba por poder gerar novas vidas.
O amor dos dois torna-se então responsável por essas vidas novas que tiveram o seu início neles, mas que são já outros seres, outras pessoas, nas quais o amor do pai e da mãe não pode de modo nenhum ser separado, mas que não pode também ser entendido como propriedade privada dos dois. Os filhos realizam verdadeiramente o mistério do amor que o casal só pode alcançar a esse nível. É nos filhos que os dois são verdadeiramente um. Um que já é outro, e o mistério da vida continua.
Vemos então como esta abertura é fundamental para o amadurecimento e crescimento do amor conjugal. A relação que os pais têm com os filhos é, certamente, de outra ordem da relação conjugal. Todos sabemos que o amor maternal/paternal não substitui, nem pode fazer as vezes do amor conjugal. Sempre que assim acontece, o que acaba por ser posto em causa é a própria verdade da relação mãe/pai filho(os) e da relação marido mulher. Contudo, o amor pelos filhos e a correspon-sabilidade na sua educação é uma realidade fundamental para o amadurecimento e aprofunda-mento do amor do casal.
Ao dizer isto tenho presente a realidade de muitos casais que não têm filhos. Se esse facto não resulta de uma opção em não querer tê-los, não vejo  em quê a reflexão feita anteriormente possa ficar afectada, pois aquela experiência de abertura continua a ser uma realidade, ainda que tenha de ser concretizada de outra maneira.
Para além da abertura a estes outros que são os filhos, a abertura aos amigos é também fundamental para  a vida do casal. Uma vez mais, a concreti-zação será diferente. Também aqui, o amor aos amigos não pode substituir o amor conjugal, nem o amor maternal/paternal. 
Abrir-se aos amigos, não é simplesmente partilhar algum tempo e mesmo algum espaço com eles. Claro que isso também é importante e indispensável. Àquilo que me refiro é algo de mais profundo, implicando uma certa partilha da experiência de vida que vai mais além do mero fruir dos tempos livres e dos momentos de lazer. Também esta experiência me parece fundamental e necessária para o aprofun-damento e concretização do amor conjugal.
A partir deste pequeno itinerário, vemos como tudo começa na vida do casal e se vai, depois, abrindo a outros níveis, acabando por retornar à vida do casal. O amor dos dois abre-se a outros e pode depois ser vivido de novo pelos dois de uma maneira mais densa e mais madura. Os outros, surgem assim como um elemento fundamental de toda esta experiência e vivência. Eles não são substi-tutivos, não podem ser, mas são indispensáveis. Sem eles o amor conjugal certamente ficaria mais pobre e não poderia crescer. 
Nestes diversos níveis de abertura e decentra-mento não falei ainda da relação com Deus. Também aqui não pode haver substitutos. A relação do casal enquanto casal com Deus não se pode confundir com os outros níveis de relação. Mas essa relação não é simplesmente mais uma que se pode somar às outras. Para nós crentes ela é o horizonte onde toda a existência acontece. 
Também por isso este Outro é fundamental para a experiência do amor conjugal.

Por Juan Ambrósio


Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More